Crítica: Tatuagem abre competição da VI Janela Internacional de Cinema do Recife

CRÍTICA | VI Janela Internacional de Cinema do Recife
Longa que se passa em meio a ditadura mostra como a censura afetou a vida de jovens artistas e os seus direitos de liberdade.

Por Paulo Cavalcante

Tatuagem começa de forma suave e ao mesmo tempo mostra a que veio, ao apresentar seus personagens num contraste da naturalidade imersa num cotidiano que ainda choca a sociedade. É 1978 quando os personagens Clécio (Irandhir Santos) e Paulete (Rodrigo Garcia) vêem seu relacionamento ruir quando o jovem soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) resolve entrar em suas vidas. Um triângulo amoroso é apenas o pano de fundo para uma história que tem como papel fundamental mostrar o movimento de censura imposto pela ditadura, ferindo a liberdade de expressão de jovens que estão a procura de um futuro melhor.
É então que surge o grupo teatral Chão de Estrelas, liderado por Clécio, que leva suas peças cheias de musicais e performances artísticas que escondem e ao mesmo tempo expõem nas entrelinhas as críticas ao momento político que se vive.
Em quase duas horas de filme, vê-se em Tatuagem uma abordagem de um fato antigo que se enquadra nos tempos atuais – o preconceito, as várias formas de se protestar e a vontade de ir até o fim na luta por um ideal comum.
O longa destaca-se não só pela trama, mas também pelos aspectos técnicos que a tornam mais sensível e real. A direção de fotografia de Ivo Lopes Araújo transforma o cenário e imerge o telespectador na imagem, sem precisar de grandes trabalhos tecnológicos. Em cena, as beliches amontoadas no acampamento do quartel militar – onde Fininha passa um pouco do seu tempo pensativo – revelam a abordagem sobre a luta entre os sentimentos de prisão e liberdade que serão abordadas no filme, no sentido político, social e psicológico.
Como diretor e roteirista, Hilton Lacerda desenvolveu seu papel de forma minuciosa, desenvolvendo temas paralelos em torno de um tema principal sem prejudicar o andamento do que se pretendia relatar, e sem comprometer os objetivos finais da história. O elenco é outro ponto forte de Tatuagem, pela forma tímida no momento que surgiu e como se desenvolveu de maneira explosiva e mostrando um entrosamento perfeito do casting, a ponto de ser possível o espectador confundir o que é roteiro e o que é improviso ou realidade.
Tatuagem peca apenas por ser uma história desenvolvida no Recife, mas que não se preocupou em destacar a cidade. Quando a mostra, é de maneira tímida e com alguns desvios cronológicos, talvez um detalhe que passou despercebido pela edição, ou algo que não era o seu foco. 
O longa de Hilton Lacerda, como dito anteriormente, aborda várias temáticas em torno de um tema principal, sendo impossível dizer que é um filme sobre isso ou aquilo – o que se pode dizer é que, deixando rótulos de lado, Tatuagem consegue tocar na ferida ao citar problemáticas reais e ao fechar arcos sem mecher com os laços entre espectador e personagem – tudo se resolve de maneira sensível e sem embates. Opta-se por mostrar um final feliz e que os momentos de lutas e dores fique sub-entendidos por quem assiste ao longa.

Tatuagem (Brasil, 2013) 

Avaliação: 
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O filme “Tatuagem” de Hilton Lacerda foi o filme responsável por abrir a Mostra Competitiva de Longas Metragens da VI Janela Internacional de Cinema do Recife, que teve início na noite desta sexta-feira, 11 de outubro. Com ingressos esgotados rapidamente, o longa já dizia a que veio – antes de chegar a Recife, passou pelo Festival de Gramado levando três prêmios, inclusive de Melhor Filme, e pelo Festival de Cinema do Rio, onde ganhou cinco prêmios, com direito também ao título de Melhor Filme.

Sinopse: Recife, 1978. Clécio Wanderley (Irandhir Santos) é o líder da trupe teatral Chão de Estrelas, que realiza shows repletos de deboche e com cenas de nudez. A principal estrela da equipe é Paulete (Rodrigo Garcia), com quem Clécio mantém um relacionamento. Um dia, Paulete recebe a visita de seu cunhado, o jovem Fininha (Jesuíta Barbosa), que é militar. Encantado com o universo criado pelo Chão de Estrelas, ele logo é seduzido por Clécio. Não demora muito para que eles engatem um tórrido relacionamento, que o coloca em uma situação dúbia: ao mesmo tempo em que convive cada vez mais com os integrantes da trupe, ele precisa lidar com a repressão existente no meio militar em plena ditadura (via AdoroCinema).

Trailer

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