Crítica: Praia do Futuro é uma demonstração de que o destino é guiado por decisões


Por Paulo Cavalcante

O cineasta ceareanse Karim Aïnouz (“Madame Satã”, “O Céu de Suely”) retorna aos cinemas com uma proposta corajosa e ousada. Praia do Futuro chega aos cinemas com uma boa história para contar, mas que tropeça na organização do roteiro, dividido em capítulos e em sua agilidade.
Escrito por Aïnouz e Felipe Bragança, o roteiro fala do salva-vidas Donato (Wagner Moura), que fracassa ao tentar resgatar um turista na Praia do Futuro, em Fortaleza, enquanto outro turista alemão, amigo do falecido, consegue ser salvo. Donato resolve contar ao alemão Konrad (Clemens Schick) sobre a morte do seu amigo, e então os dois rapidamente se envolvem numa aventura sexual e romântica. Aliás, mais sexual do que romântica, talvez.
A primeira cena de sexo é inesperada ao espectador. No roteiro, falta a criação de um contexto para que aquela cena se encaixe e convença quanto ao espírito romântico que envolve os protagonistas após o primeiro ato sexual. Mesmo com essa pequena falha, Praia do Futuro começa com um grande acerto – aborda a homossexualidade sem discutir preconceito. Um ponto forte na dramaturgia nacional em relação a sétima arte, sugerindo um passo para que a intolerância deixe de ser o foco quando se discute a temática gay e passe a dar valor ao relacionamento da forma natural que é. Neste longa, temos dois protagonistas homens, que se relacionam, e que são entregues como indivíduos bem decididos acerca de sua sexualidade, mesmo que demonstrem suas inseguranças, como é o caso de Donato.
A fotografia de Praia do Futuro se aliou de forma inteligente com o roteiro. Ao dizer que “não dá para se construir nada na Praia do Futuro” (ao falar da corrosão presente nas áreas litorâneas), Donato expõe outro sentido a sua fala, além do literal – aquele não era o lugar em que ele pudesse construir uma nova vida com o alemão por quem tinha se apaixonado tão rapidamente. E é ao partir para Alemanha com o turista, abandonando o irmão, mãe e emprego, que Donato aparece demonstrando toda a liberdade que ele não projetava na Praia do Futuro. Daí, os fatos se contradizem com tudo o que vemos na tela, como plano de fundo. A sensação de liberdade dos bancos de areias percorridos pelos motociclistas na praia no início do filme e a gélida e cinzenta Alemanha transpõem uma ideia inversamente proporcional às projeções do brasileiro protagonista para sua vida.

A medida que Wagner Moura e Clemens Schick demonstram com quase naturalidade as vertentes psicológicas de seus personagens, da satisfação à insatisfação da vida, vê-se nos primeiros atos o filme se transformar num demorado retrato vivo do cotidiano do casal. A partir do momento em que o espectador começa a se inquietar com o tom arrastado que tende a surgir, um novo volume se inicia e entrega o talento de Jesuíta Barbosa.
Depois de sua ótima interpretação no filme “Tatuagem”, de Hilton Lacerda (leia nossa crítica), Jesuíta aparece assumindo com maestria um novo personagem, amargurado e cheio de dores pelo abandono do irmão. Ele é Ayrton, interpretado carismaticamente pelo pequeno Savio Ygor Ramos no início da trama, protagonizando momentos de criança com Donato, resgatados posteriormente na pele de Jesuíta Barbosa, quando ele conhece uma alemã na balada. O ator pernambucano e de adolescência cearense encarna o papel do irmão mais novo do salva-vidas e demonstra seu talento entre ódio (os murros e pontapés no reencontro com Donato), o amor (o abraço e as lágrimas ainda no reencontro com o irmão) e até a comédia (as poucas e boas tiradas engraçadas, como no café com Donato ou na tentativa de sexo com a alemã da balada).
O último capítulo do filme inicia uma narrativa que retoma o que foi dito no primeiro parágrafo deste texto. As características construídas entre o começo e o meio de Praia do Futuro tornam-se conflituantes com o que é demonstrado no seu final. Cita-se o amor de Donato pelo irmão e o posterior abandono da família, cortando completamente as relações e o estranho comportamento dele com Konrad, transparecendo que o relacionamento tinha seus abalos e que nada era tão perfeito como quando tudo começou. Este último ponto talvez explique o sexo “jogado” entre uma cena e outra sem a criação de um ambiente romântico, afirmando que o sexo como simbologia ocasionalmente prevaleça diante do sentimento.
Embora a narrativa se torne lenta e tenha seus furos, o fato de sermos agradados com personagens intrigantes e com um leque de reflexões acerca da vida e do que é ser o homem nos tempos de hoje faz com que juntos a eles, mergulhemos numa neblina fria e obscura, cujo destino é aquele que será guiado pela coragem de cada um nas suas tomadas de decisões.

Praia do Futuro (Brasil/Alemanha, 2014)
Avaliação: () 
Sinopse: Praia do Futuro, Ceará. Donato (Wagner Moura) trabalha como salva-vidas. Seu irmão caçula, Ayrton (Jesuita Barbosa), tem grande admiração por ele, devido à coragem demonstrada ao se atirar no mar para resgatar desconhecidos. Um deles é Konrad (Clemens Schick), um alemão de olhos azuis que muda por completo a vida de Donato após ser salvo por ele. É quando Ayrton, querendo reencontrar o irmão, parte em sua busca na fria Berlim (via Adoro Cinema).

Trailer:

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