Crítica: Garota Exemplar

Garota Exemplar se consagra como uma das melhores produções do ano, com grandes reviravoltas que conquistam o espectador do começo ao fim do filme.

Quando as coisas não vão bem entre um casal, pode-se esperar tudo de uma vingança preparada pela mulher. Quem não conhece o best-seller Garota Exemplar, talvez até ache que o filme é mais uma adaptação dos tantos romances publicados nas últimas décadas. Mas passa longe disso. A prova vem logo na primeira cena, quando o personagem de Ben Affleck acaricia a cabeça da esposa e ao mesmo tempo narra a situação, dizendo que gostaria de partir seu crânio em busca de respostas. 
Com uma trama elogiada, o livro originou o filme dirigido com perfeição por David Fincher, que já havia adaptado “Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” e se consagrou um dos melhores diretores de cinema da atualidade. Talvez o espectador se assuste com os longos 149 minutos de filme, que parecem até passar devagar, mas que apresenta conteúdo suficiente para não deixá-lo entediado. Ponto forte do filme, Fincher (“Clube da Luta”, “Seven”) apostou numa direção bem detalhada, explorando o cenário, as expressões e a personalidade dos personagens criados pela escritora Gillian Flynn, que também assinou o roteiro. Garota Exemplar é o tipo de filme que cada diálogo é importante e que uma piscada de olho a mais pode significar a perda de um detalhe importante para a trama. 
Garota Exemplar (“Gone Girl”) conta a história do fracassado escritor Nick Dunne (Ben Affleck) que descobre no dia do seu aniversário de cinco anos de casamento que sua mulher, a rica e bonita e Amy (Rosamund Pike) desapareceu. Em sua casa, encontra coisas quebradas e vestígios de sangue. Assustado, Nick chama a polícia, que inicia a investigação e diante das circunstâncias que vão surgindo, acaba se tornando o principal suspeito.
Um dos maiores méritos de David Fincher foi ter conseguido transportar para as telonas a visão dual apresentada nos livros – os acontecimentos segundo Nick e sob a ótica da esposa Amy. De forma organizada, estas visões se intercalam sem confundir o espectador e deixando-o mais preso a trama. Ben Affleck e Rosamund Pike se apresentam com segurança como protagonistas do filme e antagônicos de sua própria história. Enquanto Pike narra as anotações do diário de Amy com uma voz íntima e segura de suas revelações, Affleck traz um Nick inseguro mas quase sempre disposto a ser verdadeiro. 
Quando Fischer convidou a londrina Rosamund Pike para estrelar o filme, ela estaria talvez assinando um passaporte para a cerimônia do Globo de Ouro ou do Oscar. A atriz emplaca quando consegue expor as dores e a mente doentia da esposa traída e do seu diabólico e bem arquitetado plano de vingança. Curiosamente, mesmo com toda a força da atuação bem incorporada de Pike, é Ben Affleck que conquista o espectador e o faz torcer por seu personagem, mesmo que seu carisma seja ofuscado por todas as provas que surgem contra ele, principalmente os relatos do diário de Amy. Neil Patrick Harris e Carrie Coon surgem também como coadjuvantes de forte apelo e que dão um grande apoio com suas ótimas atuações aos personagens principais.
Outro destaque de Garota Exemplar fica por conta de Donald Graham Burt, que consegue conferir a produção uma técnica que aproveita cada espaço vazio do cenário, tornando-o significativo para o momento. As tomadas da casa de Nick e Amy e o enquadramento ora longe, ora perto de cada personagem conferem uma percepção mais significativa da tensão explorada pelo roteiro. Trent Reznor e Atticus Ross aumentam essa tensão com uma trilha que foge do comum e eleva o ar pesado da trama a outro nível.
David Fincher traz em Garota Exemplar mais uma obra acertada, onde todos os elementos de um produção cinematográfica funcionam, com um roteiro e montagem bem elaborados. Fazendo-se valer da máxima “os fins justificam os meios”, na sub-ótica de Fincher “os fins justificam o começo”. Com tantas reviravoltas e situações inesperadas, é impossível tirar conclusões precipitadas, o que torna um mérito quando consegue envolver o espectador ao filme do começo ao fim.

Garota Exemplar (Gone Girl, EUA, 2014)

Avaliação do editor:
(5/5)

Sinopse: O casal no centro da história – o ex-escritor de Nova York Nick Dunne e sua esposa Amy, ex “garota descolada”, atualmente lidando com a recessão no centro-oeste – tem todos os contornos e aparência externa do modelo de felicidade conjugal contemporânea. Mas, no 5º aniversário do casamento, Amy desaparece, e a aparente felicidade se transforma em um labirinto de transtornos. Nick se torna o principal suspeito, envolto em uma aura de conduta suspeita.

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