Crítica: A Misteriosa Morte de Pérola

Com um poder de cena incrível o terror do filme consegue amedrontar o público brilhantemente.

A Misteriosa Morte de Pérola, exibido com exclusividade no Janela, foi dirigido por Guto Parente. O filme trata-se de um terror que prende os olhos do telespectador, inclusive dos mais medrosos como eu. O suspense do filme é resultado de um processo de solidão da personagem Pérola (Ticiane Augusto Lima).
A jovem estudante se muda e deixa para trás amigos, família e o namorado. A monotonia das primeiras cenas de Pérola dentro do casarão leva o público a uma ansiedade incomoda, mas logo percebemos a importância de ver Pérola abrindo cada uma das janelas de sua nova casa.
O local rodeado de janelas e portas de vidro, inclusive em ambientes incomuns como no banheiro, faz surgir os primeiros momentos de tensão. Sombras de pessoas passando pelo corredor e o ressoar dos passos desses subindo as escadas e andando pelos corredores vão ligando o “sinal de alerta” não só do público, mas também o de Pérola.
Ela não estabelece relação com nenhum dos seus vizinhos, isso provoca uma incerteza sobre as pessoas que tem sua sombra projetada nas portas e janelas da casa. Entretanto, um dos elementos mais significativos que provocam a sensação de terror permanente é um relógio de pêndulo que com seu inacabável “tic tac” parece anunciar uma grande tragédia.
A solidão que Pérola começa a sentir no casarão faz com que ela comece a confundir realidade e fantasia. As tentativas dela em se comunicar com uma das pessoas que ela deixou por conta da viagem resultam apenas em tentativas frustradas. Suas ligações não são atendidas. Misteriosamente Pérola aparece morta e ferida no chão da casa. 
Logo em seguida seu namorado aparece no casarão e entra no apartamento. Pérola não está mais lá e isso deixa claro que já se passou algum tempo depois de sua morte. Com uma câmera na mão seu namorado passa a filmar todos os cômodos e os corredores do casarão na busca de sentir a presença de Pérola. O surgimento dele no filme parece trazer de vez o terror que antes aparentava ser apenas uma ameaça.
A Misteriosa Morte de Pérola conquista o público por ser um trabalho que diz muito mesmo com cerca de apenas três minutos de diálogo, isso porque todo o cenário e as expressões dos personagens dialogam de forma simples com telespectador. Porém algo que incomoda são detalhes que me parecem ser pertinentes à história e não estão presentes, me levando a questionamento mais detalhados sobre a vida de Pérola.
Mesmo sentindo falta desses detalhes, é clara a qualidade do filme e o mais impressionante é pensarmos que todo ele, produzido ao longo de dois anos, é resultado praticamente exclusivo de Guto e Ticiane. Ele além da direção é o responsável pelo roteiro, edição e montagem. Já Ticiane assina a produção, direção de arte e figurino. Juntos eles são responsáveis pela fotografia, som e atuação. 
Por fim acho válido dizer que o filme faz com que além de assistirmos, possamos também senti-lo devido à importância do “discurso” de um cenário com elementos que contribuíram brilhantemente para essa produção e não sentirei futuramente nenhuma estranheza em publicar notícias sobre o sucesso dele em outros festivais.
* Filme exibido oficialmente na VII Janela Internacional de Cinema do Recife, no dia 26 de outubro de 2014.

A Misteriosa Morte de Pérola (Brasil, 2014)

(4/5)

Sinopse: Longe de casa e de seu namorado, vivendo sozinha em um apartamento antigo e sombrio, Pérola sente os efeitos de um tempo que passa pesado e mordaz, sendo cada vez mais tomada por nostalgia e medo, solidão e pavor, a um ponto onde sonho, fantasia e realidade perdem suas fronteiras.


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