Crítica: O Homem Mais Procurado

Responsável por despertar certo questionamento, esta incrível adaptação reflete a verdade condicionada em nosso seio ocidental enquanto culmina para um desfecho inteligente

Depois dos ataques ao World Trade Center em 2001, o cinema incorporou o que talvez já possa ser encarado como um sub-gênero, dentro da filmografia norte-americana principalmente. O terrorismo  – termo que se propagou e se popularizou desde então – é hoje um assunto extremamente atual e delicado, de onde a ficção bebe da água e se mostra de papel indispensável na hora de reconstruir e edificar nosso senso de reflexão sobre o tema (e sobre tudo).

O Homem Mais Procurado é uma adaptação da obra de John Le Carré, escritor conhecido por seus romances de espionagem, muito deles já transportados para o cinema – o último foi O Espião que Sabia Demais (2011) – e aborda a temática do terrorismo de maneira não muito típica.

A trama do longa se sustenta quase que totalmente pelos seus diálogos e ações tomadas pelos personagens, passando longe da ideia que se espera de um filme de espionagem, onde muitas vezes a ação fica em evidência. É, O Homem Mais Procurado não é um filme de ação.

Ele começa quando um imigrante, metade checheno e metade russo, chega clandestinamente em Hamburgo e logo atrai a atenção dos americanos da CIA e do serviço de inteligência alemão, este chefiado pelo melancólico Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman). Ao passo que descobrem que o imigrante chama-se Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin) e que ele veio tomar posse de uma quantia gigantesca que é sua por direito, as preocupações aumentam e uma caçada se inicia, pondo o espectador em cima do muro, sem saber pra quem torcer ou mesmo se deve torcer por alguém nesse jogo.
A forma como as coisas se desencadeiam ao longo da trama é mérito de um ótimo roteiro, assinado por Andrew Bovell, porém podemos atribuir também a ele a demora do filme em mostrar a quê veio. São duas horas de duração, e em apenas um pouco mais da metade é que a coisa começa a ficar interessante. A montagem ajuda muito a dar fôlego pro filme, preenchendo talvez esse incômodo do roteiro.
O Homem Mais Procurado é elegante e impecável em sua composição visual. Anton Corbijn assume a direção e nos presenteia com planos belos e também cheios de significados, como a primeira cena: a água que vai perdendo a tranquilidade à medida em que somos informados do cenário em que estamos sendo inseridos.
Um dos grandes pontos do filme, e talvez a sua maior crítica se intercale nas relações do seu protagonista, o detetive Bachmann, com a agente da CIA intepretada por Robin Wright. Há várias cenas de diálogos dos dois, em que eles expõem como se comprometem naquele trabalho, sempre irônicos, desconfiados. Temendo a qualquer momento uma intervenção norte americana, Bachmann, ao mesmo tempo em que precisa tranquilizar sua cúmplice na missão, a advogada Annabel Richter (Rachel McAdams), deve assegurar à CIA de que tudo está sob controle o dele.
O casting é repleto de estrelas, todas muito bem nos papéis que lhes cabe, mas é Philip Seymour Hoffman que brilha, é claro. Seu Bachmann é um homem atarefado, que vive em constante cobrança e pressão, sempre mal barbeado, cansado e com um cigarro entre os dedos. Mantêm um bom relacionamento com seus colegas de trabalhos e subordinados, é adepto da ideia de que uma boa conversa pode resolver as piores situações, e é num dos únicos momentos em que se exalta que se tem a cena mais forte do longa. Definitivamente, O Homem Mais Procurado veio para nos lembrar quanta falta faz e fará Hoffman, que morreu de overdose em fevereiro deste ano, sendo esse o seu último trabalho concluído.
Responsável por despertar tamanha reflexão ideológica no espectador, esta incrível adaptação questiona a verdade condicionada em nosso seio ocidental enquanto culmina para um desfecho surpreendente e inteligente.

O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, 2014, GB/EUA/ALE)

Avaliação do editor: 
4/5
Sinopse: Um homem entra clandestinamente na Alemanha no intuito de recuperar a herança que seu pai lhe havia deixado, mas logo se torna alvo dos serviços secretos alemães e americanos, que acreditam que ele possa ser um terrorista financiador de escala internacional. No meio a uma série de investigações e transações, uma verdadeira caçada se arma, e fica difícil confiar em qualquer pessoa. Será o homem mais procurado uma vítima da opressão ocidental ou um radicalista perigoso?

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