Crítica: Turistas (Força Maior)

Muito além de uma metáfora da avalanche que inicia o caos emocional, Turistas culmina numa síntese da vida, revelando a verdade sobre um relacionamento

Num ambiente nevado e em meio a explosões e clarões, uma avalanche nos Alpes franceses é apenas uma metáfora do que estava prestes a acontecer na vida de uma família. Essa é a premissa de Turistas (Force Majeure), exibido na VII Janela Internacional de Cinema do Recife e que deverá chegar ao circuito comercial em 2015, com o título “Força Maior”.

A trama retrata as férias do casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongli) e seus filhos, que decidem fugir do trabalho e da rotina do dia-a-dia. Suas vidas estavam bem até presenciarem uma avalanche num restaurante a céu aberto. A medida que a avalanche se aproxima, o terror se espalha entre os presentes no local. Ebba tem como primeira atitude proteger os filhos e ao gritar pelo marido, o vê correndo para o mais longe possível. A cena talvez seja a mais caprichada do filme, num trabalho impactante do diretor Ruben Östlund, que consegue fazer sentir além da tela a angústia de passar por tal situação de desastre.
A avalanche, na verdade, não passou de um susto. Era apenas uma nuvem de neve que havia passado pela região do restaurante, enquanto a avalanche mesmo havia sido contida antes que chegasse ao estabelecimento. Os turistas então começam a retornar para as suas mesas, e é a partir daí que começa o drama entre Tomas e Ebba. A esposa desaprova a atitude do marido, que ao invés de proteger a família, fugiu. Ele, no entanto, nega o feito.
Com o desprezo da esposa, Tomas se vê diante de uma sórdida depressão e da necessidade de provar que não é o homem covarde que sua mulher pensa que é. Em duas oportunidades, Ebba cita o acontecimento e a atitude do marido em jantares. Aqui, Östlund consegue reproduzir um tribunal, quando todos olham Tomas e julgam suas atitudes, enquanto ele apresenta respostas sem fundamento.

A medida que os seis dias de férias vão passando, Tomas revela-se cada vez mais um homem desesperado, até chegar ao seu ápice e surtar na porta do quarto do hotel. Nesta cena, o drama é extremamente exagerado, com os gritos e choro escandaloso do personagem. Os diálogos excessivos e as pausas focadas na bela paisagem dos Alpes convergem para uma avalanche de dramas que acaba por fim, envolvendo até os filhos do casal.

Diante de muita tensão, em poucos mas memoráveis momentos essa linha é partida com o humor do casal que visita Ebba e Tomas e das situações e imprevistos presenciados pelo zelador do hotel, cuja figuração acabou sendo elevada a outro plano. A medida que o filme segue para o seu desfecho, as máscaras caem e os sentimentos que até então pareciam estarem sobre-guardados vão ficando nítidos, revelando uma família de um patriarca problemático mas amado, com uma família disposta a participar de teatro de emoções a medida que tentam salvar a relação e esconder as mágoas para si. Um desfecho que se antecipa a penúltima sequência do longa, tornando os minutos finais dispensáveis e que poderiam ser facilmente descartados do produto final.
Em Turistas / Força Maior, atitudes caminham para uma resposta da vida, que vem acompanha de instintos e consequências que transparecem em ilusão para quem está de fora. Muito mais do que uma metáfora da avalanche que dá início ao caos emocional, o filme culmina numa metáfora da vida, quando um casal aos olhos dos outros parece estar bem, enquanto internamente passam por um turbilhão de desencontros e emoções.

* Filme exibido oficialmente na VII Janela Internacional de Cinema do Recife, nos dias 25 e 26 de outubro de 2014.

Turista / Força Maior (Force Majeure, 2014, SUE, FRA, NOR, DIN)

Avaliação do editor:
(4/5)
Sinopse: Família sueca passa férias de Inverno nos Alpes. O sol brilha e as pistas são magníficas, mas durante um almoço num restaurante uma avalanche vai perturbar tudo. clientes do entram em pânico. Ebba, a mãe, chama pelo marido Tomas tentando proteger os filhos, mas ele fugiu, pensando apenas em salvar a própria vida. A avalanche pára sem causar danos e, no entanto, o universo da família foi abalado. Há agora uma interrogação acerca de Tomas, que tenta desesperadamente reocupar o lugar de patriarca da família. Vencedor do prêmio de melhor filme na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2014.

DEIXE UMA RESPOSTA

Deixe seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui