Crítica: Ventos de Agosto

Na proposta de apresentar o cotidiano de uma localidade e o que se guarda na memória diante de uma perda, Ventos de Agosto peca com direção incoerente e roteiro sem ritmo. 

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Paulo Cavalcante
Paulo Cavalcantehttp://www.cafedeideias.com
Professor, atua na internet há mais de dez anos produzindo conteúdo sobre séries e cinema, aprecia a sétima arte e a dramaturgia para as diferentes telas.

Dandara de Morais e Geová Monoel estrelam "Ventos de Agosto", de Gabriel Mascaro (Divulgação/Desvia)
Dandara de Morais e Geová Monoel estrelam “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro (Divulgação/Desvia)

Com uma filmografia consolidada, o diretor Gabriel Mascaro agora aposta na ficção, sem perder as bases da realidade e da experimentação. Em Ventos de Agosto é nítido o estudo geográfico e antropológico da vida numa comunidade pesqueira e marinha, numa história regida por Shirley (Dandara de Morais) e Jeison (Geová dos Santos).

No longa, vemos uma relação intensa entre Jeison e Dandara. Mas quando Jeison encontra um corpo à beira mar, ele decide cuidar do defunto até que a polícia resolvesse buscá-lo. Com furos significativos no roteiro, as mudanças provocadas pelo defunto no relacionamento dos protagonistas e também na comunidade tornaram-se mais forte do que o fato que deu título ao filme – o pesquisador que chega ao local para capturar e estudar os ventos característicos daquela região.
O pesquisador mesmo só serviu para aproximar o público dos coadjuvantes – os não-atores, que na realidade são moradores da comunidade. Com a proximidade de Jeison com o defunto e o desabrochar de um sentimento de respeito aos mortos intensificado numa comunidade religiosa, Dandara enfrenta com estranheza o distanciamento do rapaz, ao ponto que sua carroça, que serviu para alguns momentos íntimos às escondidas, agora serve apenas para carregar cocos.
Diante dos erros, Mascaro acerta ao apostar em grandes referências tornando a simbologia, talvez, o ponto mais forte de Ventos de Agosto. Nas primeiras tomadas vemos Dandara se bronzeando com um famoso refrigerante de cola enquanto escuta um moderno rock britânico, o uso de motos como principal meio de transporte terrestre num ambiente que as vezes parece inóspito e uma crítica forte a despreocupação da polícia com as necessidades da sociedade entregam ao espectador, ainda que com analogias, a realidade que vai além de uma sociedade pequena e isolada e permeia os grandes centros urbanos.

Ainda assim, Ventos de Agosto peca ao apresentar um ritmo desconectado associado a um roteiro incoerente, que na válida proposta de apresentar ao público o cotidiano daquela localidade bem como um diálogo sobre o que se guarda na memória diante de uma perda, leva tudo a uma queda significativa da qualidade diante de uma produção mal executada.

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* Filme exibido oficialmente na VII Janela Internacional de Cinema do Recife, no dia 26 de outubro de 2014.

Ventos de Agosto (2014, BRA)

Avaliação do editor:
(2/5)

Sinopse: Shirley deixou a cidade grande para viver em uma pequena e pacata vila litorânea cuidando de sua avó. Ela trabalha numa plantação de coco dirigindo trator. Mesmo isolada, cultiva o gosto pelo punk rock e o sonho de ser tatuadora. Ela está de caso com Jeison, um rapaz que também trabalha na fazenda de cocos e nas horas vagas faz pesca subaquática de lagosta e polvo. Um estranho pesquisador chega na Vila para registrar o som dos ventos alísios que emanam da Zona de Convergência Intertropical. O mês de agosto marca a chegada das tempestades e das altas marés. Os ventos crescentes marcarão os próximos dias da pequena vila colocando Shirley e Jeison numa jornada sobre perda e memória, a vida e a morte, o vento e o mar.

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