Crítica: A História da Eternidade

A História da Eternidade é mais que uma história sobre perdas e ganhos; vai além, e eterniza na memória o que não se pode ter em mãos.

“O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, já dizia Antônio Conselheiro em Os Sertões, de Euclides da Cunha. Uma reflexão que é puro referencialismo para A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante, numa produção ousada e que aposta na emoção sem tornar a trama exaustiva.

Trabalhar a emoção associada a uma estética refinada parece ser um trabalho difícil pro cinema atual, mas Camilo Cavalcante consegue com A História da Eternidade fazer que isso tenha sido um trabalho fácil, mesmo que não o tenha sido, tornando esse fato uma marca para sua produção. O cenário, um povoado aparentemente esquecido no sertão pernambucano, torna-se visualmente deslumbrante diante de nossos olhos, uma transformação entregue com maestria pelo trabalho realizado na fotografia de Beto Martins, que ainda imprime diante da beleza todo sentimento angustiante da seca, do abandono e da situação difícil que paira sobre aquela paisagem.
A História da Eternidade revela sua identidade na primeira tomada. Um ambiente seco e hostilizado pelo calor do sol recebe um cortejo fúnebre de uma criança a medida que, em seguida, somos apresentados às três personagens chave da trama – Querência, Alfonsina e Das Dores. Querência (Marcelia Cartaxo) sofre o luto da perda do filho, que acabara de ser sepultada, mas que pode ter o conforto do coração com o amor do sanfoneiro cego da comunidade; Das Dores (Zezita Matos) é uma senhora religiosa, que aguarda pela visita do neto, que está retornando misteriosamente de São Paulo; e Alfonsina é uma garota prestes a completar os 15 anos e que sonha em conhecer o mar. Enquanto seu sonho não se realiza, cuida da casa, do pai durão e dos irmãos e nutre uma paixão pelo tio, um artista epiléptico completamente deslocado daquele mundo.
O tio Joãozinho, o artista, é interpretado numa atuação marcante de Irandhir Santos, que fica longe de ser protagonista do longa mas que em toda a trajetória do seu personagem deixa suas marcas, digno de tal título. Irandhir e a jovem Débora Ingrid protagonizam as cenas mais lindas do filme – quando Alfonsina ganha do seu tio e o seu presente de aniversário e quando Joãozinho, com suas calças de estampas alegres, uma rede decorada artesanalmente e uma vitrola, dubla “Fala” de Ney Matogrosso ao mesmo em que a câmera gira ao seu redor numa linda sequência de imagens.
A História da Eternidade desenvolve todo seu enredo com atuações tocantes, uma trama bem acompanhada pela trilha que homenageia Dominguinhos e organizada por um roteiro de alegorias estéticas bem definidas. É numa trama em que é preciso perder para ganhar e ganhar para perder, ver o sertão virar mar é apenas pano de fundo para ir mais além e mostrar que podemos eternizar na memória aquilo que não podemos ter em nossas mãos.
* Filme assistido durante a cobertura da VII Janela Internacional de Cinema do Recife, no dia 01 de novembro de 2014.

A História da Eternidade (BRA, 2014)

Avaliação do editor:
(5/5)
Sinopse: Alfonsina (Débora Ingrid) tem 15 anos e sonha conhecer o mar. Querência (Marcélia Cartaxo) está na faixa dos 40. Das Dores (Zezita Matos) já no fim da vida, recebe o neto após um passado turbulento. No sertão compartilham sobrenome e muitos sentimentos. Amam e desejam ardentemente.

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