Crítica: Boyhood – da Infância à Juventude

boyhood-movie

O quão impensável é: a ideia de se fazer um filme com uma produção que dure doze anos? Reunir uma equipe, convencê-los de que isso dará certo e mantê-los firmes e fortes no projeto até o fim, ainda guardando segredo? Existem coisas parecidas no cinema, na televisão, mas todos cercados por grandes produtoras, orçamentos astronômicos, divididos em vários projetos rentáveis e ajudados por artifícios que só a sétima arte promove. É, Boyhood – da Infância à Juventude é a prova de que tamanha ousadia valeu a pena, e o nome do louco responsável por isso é Richard Linklater. Ele, que já presenteara o cinema com a lindíssima trilogia “Before”, que casa perfeitamente com esse Boyhood.

Ambas as obras tem o tempo como agente principal, mas é em Boyhood que ele atua do inicio ao fim. Neste, parafraseando Matt Zoller Seitz, percebemos como ele desliza por entre nossos dedos tal qual um lenço de seda, rápido e quase imperceptível. Seguimos a saga de uma família classe-média do sul dos Estados Unidos através do olhar do menino Mason (Ellar Coltrone), que começa com seis anos de idade e que, durante as quase três horas de duração do longa, acompanhamos chegar aos dezoito. E isso se torna tão fascinante porque é real – na medida do possível, claro -, podemos ver o ator crescer frente às câmeras (e isso vale para boa parte do elenco), sua voz engrossar, sua grande esticada de uma hora pra outra, suas espinhas e barba brotarem. Mas não se aplica somente aos aspectos físicos, aquela criança curiosa, de riso fácil e apegada aos pais, aos poucos se torna um rapaz mais instrospectivo, contido e desapegado, totalmente natural nessa fase da vida.

Mason e sua irmã Sam, vivida pela filha do diretor, Lorelei Linklater, moram com a mãe Olivia, uma excelente Patricia Arquette, e precisam ficar se mudando em tempos e tempos para se adaptar aos estudos, trabalhos e novos relacionamentos da mãe. O pai (Ethan Hawke) não é muito presente, mas vez ou outra aparece para a alegria dos meninos, que se fartam ao seguir o homem num carro legal, jogar boliche, comer besteiras e ouvir suas canções. Os pais são duas figuras que, como para qualquer criança, afetam bastante na forma como elas encaram suas vidas, e aqui não é diferente. Linklater, que também escreveu o roteiro, permeia pelas relações pais-filhos de forma sutil mas grandiosa.

Aliás, sutil mas grandioso definem bem o filme. O roteiro quer causar a falsa sensação de ser simples, mas engana-se quem acha que tudo ali é natural porque é. Richard Linklater é um cineasta que emprega seus recursos com cuidado. Sua mão e olhar estão ali o tempo inteiro.

Boyhood vem e mostra a vida como ela é. Diversos personagens simplesmente surgem na projeção, sem nenhuma premissa ou apresentação, e assim como na vida, desaparecem da mesma forma, de repente e sem explicação. É quase como deixar uma câmera na sua sala filmando pra sempre, sem interferências, vendo o quanto de pessoas passarão por lá e as que voltarão.

Há um momento do filme em que a mãe conversa com um empregado estrangeiro, o espectador encara como um diálogo comum, mas é ao se reencontrarem, que percebemos como tudo aquilo é incrível, refletimos sobre como alguém pode causar impacto no outro sem que jamais se saiba. Quem nunca ouviu algo de alguém, que jamais esqueceu, e essa pessoa provavelmente não faz ideia e provavelmente nem se lembra do que disse?

É mesmo impossível assistir Boyhood sem se identificar em algum momento. Ele te trás tanta coisa, te faz pensar nessa grande trajetória que é a vida. E se você cresceu nos anos 2000, pode ter certeza que não serão poucos os momentos nostálgicos. O que é bastante curioso, já que é incomum um filme dos anos 2000 ser nostálgico, pois apresenta coisas e objetos vistos e usados por todos nós não faz tanto tempo. E é igualmente maravilhoso perceber que nada daquilo faz parte de um desing de produção estilizado, afinal tudo foi filmado durante a última década.

A trilha sonora conta com diversos hits dos últimos anos, sucessos de Coldplay, The Hives, Cobra Starship, DaftPunk, ArcadeFire permeiam o longa. O excesso de referências a ícones da cultura pop, como Harry Potter, Dragon Ball Z, Britney Spears, Star Wars, High School Musical, Lady Gaga… funcionam quase como marcadores temporais. A nostalgia vem muito como consequência da visão acertada de Linklater sobre o agora. Beira quase ao assustador pensar que ele previu que todas essas coisas tão contemporâneas se tornariam imortalizadas no campo pop tão rapidamente.

A montagem é excelente, não procura demarcar a passagem do tempo com cortes óbvios. Há cuidado de nem mesmo trazer letreiros exibindo os anos. É fácil perceber quando estamos em 2009 ou 2010 apenas pelo corte de cabelo que os personagens apresentam, pelo aparelho de celular ou pela música que estão ouvindo.

Boyhood apresenta questões triviais do ser humano, aquelas que todos nós nos fazemos em determinada fase da vida, que fazemos uns aos outros. Ouvimos mais de uma vez “o que você quer?”, “o que você quer ser?”, “o que procura?”. Todos os adultos ou figuras de autoridades aparecem em algum momento aconselhando, pondo suas expectativas sobre Mason, como se suas experiências falassem com ele, como se a verdade estivesse nelas. Mas Linklater também mostra que os adultos erram e seguem errando, se decepcionando e se transformando. As mudanças que sofrem os pais do garoto são perceptíveis no jeito como lidam com as coisas à medida que o filme se aproxima do final.

Não há uma trama, um conflito, um clímax que ligue todos os pontos da história. É até mesmo difícil fazer uma sinopse do filme. Não caberia apontar furos e acertos do roteiro. Aqui isso não entra em questão.

Boyhood é um retrato fiel e melancólico de uma geração. É sobre a passagem do tempo e a passagem da vida, é sobre o nosso crescimento, que se dá a todo o momento. É impossível assistir a essa obra tocante sem pensar nas coisas que virão, porém mais ainda, no que já foi, mesmo quando uma grande personagem pede em determinado momento para que não se olhe para trás.

Boyhood: da Infância à Juventude (Boyhood, 2014, EUA)

Avaliação do editor:

5
(5/5)
Sinopse: O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Deixe seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui