Crítica: Livre

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Mesmo com um Oscar desde 2006, Reese Witherspoon continuou sua carreira sem grandes papéis e grandes filmes. Em 2012, ao ler o romance de Cheryl Strayed, Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço, a atriz encontrou a chance de embarcar num projeto totalmente diferente do que vinha fazendo. Ela correu atrás de adquirir os diretos de adaptação para sua produtora, e já em 2013 a Fox Searchlight Pictures assumia o encargo de levar o longa aos cinemas. Com o roteiro escrito por Nick Hornby (Educação) e a direção por conta de Jean-Marc Vallée, que no fim do ano passado fez sucesso com Clube de Compras DallasLivre chega agora aos cinemas de olho na temporada de premiações.

Livre conta a história da própria romancista Cheryl Strayed, que após a imprevista morte de sua mãe, viu sua vida se desestruturar por completo, afastando-se da família e destruindo o seu casamento. A decisão tomada por ela é rígida, e mesmo com todos os impasses que poderiam ocasionar em sua desistência, Cheryl parte sozinha pela Pacific Crest Trail, trilha que percorre toda a costa oeste dos EUA até o Canadá. A fome, o medo, o frio, a solidão, soam ínfimos perto do que se tornara a vida de Cheryl.

Logo na primeira sequência do filme, encontramos uma Reese Witherspoon sem maquiagem, suja e ofegante, tirando fora uma unha ferida. Cena de abertura um tanto chocante, finalizada por um grito de fúria da personagem quando esta derruba no abismo uma de suas botas. Nele não está contido apenas a perda de um acessório importante, é um grito de cansaço, um grito onde tudo o que Cheryl tem perdido ao longo da sua jornada (como “jornada” lê-se “vida”, e não a jornada literal) está implícito.

Ao longo da montagem que alterna entre o presente, com Cheryl percorrendo a trilha, e o passado, com várias camadas temporais – Cheryl criança, Cheryl cursando a faculdade, Cheryl casada, Cheryl após a perda da sua mãe, Cheryl dando início a viagem – passamos a conhecer as razões que a levaram a decidir sair sozinha por lugares inóspitos, com uma mochila tão monstruosa que ela não consegue levantar sem grandes dificuldades. Mochila esta, aliás, que ajuda a ilustrar fardos que Cheryl preferia largar mas não pode.

Reese Witherspoon está incrível. Nada mais interessa a não ser ela. Atua como produtora, mas brilha como atriz. Sua Cheryl é teimosa, inteligente, frágil e corajosa. Ela xinga, sente medo, é sincera e introspectiva. Livre é mesmo um filme de atuação, que provavelmente arrebatará muitas indicações para sua atriz principal. Os primeiros a se deixarem seduzir por Reese foi o pessoal da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (Globo de Ouro), que deixaram um lugar para a moça na categoria de Melhor Atriz de Filme Dramático.

A paisagem é uma estrela a parte, passamos por campos desérticos, florestas exóticas e montanhas glaciais. É curioso conhecer o funcionamento desse tipo de atividade, é chocante se dar conta que diversas pessoas fazem essas caminhadas o ano todo, e de tão envolvidos naquela solidão de Cheryl, ficamos aliviados quando ela encontra algum companheiro de trilha, ou quando ela consegue chegar em algum ponto de parada.

O roteiro não apela pra cenas de ação que poderia se esperar de um filme de andarilho. Cheryl não vive encontrando perigos, animais selvagens que querem devorá-la ou algo do tipo, pelo contrário, ela até se depara vez ou outra com um animal a quem se afeiçoa, figura esta reproduzida terrivelmente com efeitos digitais. Os reais perigos que a protagonista enfrenta são suas próprias lembranças, que não estão ali para serem esquecidas, mas cicatrizadas. Às vezes, alguns homens mal-intencionados representam ameaça, o que nos angustia verdadeiramente quando lembramos o quão mais difícil é para uma mulher estar naquela situação.

Livre não tem muitos arroubos dramáticos, ele segue da mesma maneira que começou: sóbrio, equilibrado, sem exageros. Acompanhamos a saga de uma mulher cujo único objetivo é salvar a si própria. É um filme muito pessoal, sobre perdas, auto-conhecimento e redenção.

Livre (Wild, 2014, EUA)

Avaliação do editor: 

(4/5)
Sinopse: Após uma série de tragédias familiares, como a morte da sua mãe, o distanciamento do seu irmão, e o fim do seu casamento, Cheryl Strayed vive uma vida de drogas e sexo promíscuo, destruindo todo o futuro que planejava para si mesma. Tentando deixar tudo para trás, ela parte numa caminhada de 1.770 quilômetros da Pacific Crest Trail (PCT) – trilha que atravessa a costa oeste dos Estados Unidos, do deserto de Mojave, através da Califórnia e do Oregon, em direção ao estado de Washington – sem qualquer companhia.

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