Crítica: Pink Floyd – The Endless River (2014)

Até recentemente The Division Bell (1994) era considerado o último álbum de estúdio do Pink Floyd. Após a turnê de divulgação, a banda entrou em processo de aposentadoria, interrompido apenas em 2005 para uma curta apresentação no festival Live 8, que também serviu para uma reunião com Roger Waters (baixista, vocalista e principal compositor da banda até 1985). A sensação de término da banda foi reforçada em 2008, com a morte do tecladista Richard Wright. Era impossível que os fãs e a imprensa imaginassem que ainda houvesse uma última carta na manga para ampliar a discografia de uma das bandas mais influentes da história da música.

No dia 05 de julho de 2014, Polly Samson, esposa do guitarrista e vocalista David Gilmour, anunciou em seu Twitter que um novo disco do Pink Floyd seria lançado em 2014. Também deu a pista de que se tratava de gravações feitas em 1994, ainda com participação de Richard Wright. O período entre esse “furo de reportagem” e o lançamento oficial (10 de novembro) foi marcado por grande expectativa entre os fãs e diversas especulações da imprensa especializada.

Aos poucos as informações foram se encontrando e descobriu-se que se tratava das gravações que ficaram conhecidas entre os fãs como The Big Spliff . Em 1993, durante o processo de composição e gravação do The Division Bell, foi levantada a possibilidade de ser lançado um disco duplo: metade com canções “padrão” e a outra metade com músicas instrumentais. Pois bem, a primeira metade virou o próprio The Division Bell, enquanto a segunda foi arquivada e esquecida por longos 18 anos. Em 2012, impulsionados pela morte do amigo Richard Wright e pela insistência de Andy Jackson (engenheiro de som da banda desde os anos 80), David Gilmour e Nick Mason (baterista) resolveram revisitar o material, que foi ganhando corpo e consistência para ser lançado. Para isso ambos adicionaram e regravaram alguns instrumentos, mas sem perder a essência do material previamente gravado. Portanto, é a partir dessa “construção” que nasce The Endless River.


É importante ressaltar essa “essência” que foi mantida, pois ela consiste , em grande parte, nos teclados de Richard Wright. Não é por acaso que o falecido tecladista é autor/co-autor de 11 das 18 músicas e que o disco é considerado um tributo a ele. A presença dos seus teclados ao longo de toda a trajetória da banda é importantíssima dentro do que reconhecemos como som do Pink Floyd. The Endless River procura deixar isso bem claro para o ouvinte.

O álbum é dividido em quatro “movimentos” (ou peças), em que as músicas se conectam entre si. Todo o disco é permeado por referências aos mais diversos momentos e fases da banda. A primeira música, Things Left Unsaid, é uma prática bem comum do Pink Floyd pós saída de Roger Waters: uma pequena introdução focada nos teclados, criando um clima para o que virá a seguir. Os ouvintes mais aguçados vão imediatamente recordar de Signs of Life, música de abertura do A Momentary Lapse of Reason (1987). Em sequência temos uma das melhores músicas do disco, It’s What We Do, que parece ser uma mistura de Shine On You Crazy Diamond com Welcome To The Machine, ambas do clássico álbum Wish You Were Here (1975). David Gilmour e Richard Wright fazem um diálogo entre guitarra e teclado que lembra os tempos áureos do grupo.

Apesar de prosseguir sempre com referências que agradam aos fãs, o disco também possuí seus pontos negativos. Embora carregue uma bonita melodia, Anisinia não convence com seu arranjo de sopros (saxofone e clarinete). Nos créditos não consta a participação de Richard Wright nesta música, o que leva a crer que talvez tenha sido uma das gravações mais trabalhadas e revistas para o lançamento do disco. Ela parece um pouco deslocada em relação às músicas anteriores.

The Lost Art of Conversation é um dos grandes momentos do disco. A gravação comprova que Richard Wright foi um excelente pianista. Uma pena que a música seja tão curta, parece algo inacabado, mas mostra que o músico era capaz de criar belas melodias. Na mesma situação está Atumn 68, que traz uma gravação de 1968, com o tecladista usando o órgão do Royal Albert Hall e que remete diretamente ao disco do mesmo ano, A Saucerful Of Secrets. Atumn 68 se encaixou entre as duas partes de Allons – Y, composição de David Gilmour claramente inspirada em Run Like Hell do The Wall (1979). É interessante reparar que, apesar de ser um grande quebra-cabeça (as sessões renderam cerca de 20 horas de gravação), The Endlesse River é um álbum coeso.

A última parte do disco começa com Calling, composta por David Gilmour e Anthony More (antigo colaborador da banda). Assim como em Anisinia, ela também não conta com a participação de Richard Wright (são as únicas entre as 18 músicas). Porém, ao contrário da primeira, Calling se insere perfeitamente no ritmo e clima impostos durante todo o disco.

Finalizando a obra, chegamos à única música com vocais. Louder Than Words parece não fazer parte do fluxo musical que o álbum cria. Não que seja uma música ruim, a letra até apresenta um fechamento para toda a obra do Pink Floyd, mas parece desconectada do disco. Aparentemente não fez parte do projeto inicial The Big Spliff, e parece de fato uma sobra do The Division Bell.

The Endless River é um disco para fãs. Para quem quer conhecer a obra do grupo, este deve ser um dos últimos álbuns a ser escutado. Isso acontece justamente por ele trazer referências e elementos que permearam toda a carreira da banda. Também fica a impressão de uma digna homenagem a Richard Wright, que ficou subestimado na eterna e polarizada discussão de quem seria o principal nome do Pink Floyd (Roger Waters ou David Gilmour). Tudo indica que esse é o último lançamento de inéditas da banda e que dificilmente se tornará um clássico. Mas isso seria exigir demais de um grupo que já fez tanto pela música.

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