Crítica: Whiplash – Em Busca da Perfeição

A perfeição, ela está sempre querendo ser alcançada em todos os aspectos da vida. Mas e quando ela é imposta? Se já é bastante ruim ser por terceiros, imagina quando você mesmo a coloca como meta principal. São nestas condições que encontramos os personagens principais desse envolvente Whiplash, filme que estreia essa semana nas salas de cinemas do Brasil.

Andrew Neiman (Miles Teller) é um jovem baterista de jazz estudante de um dos melhores conservatórios de música dos EUA, numa noite em que praticava o instrumento ele é abordado por Terence Fletcher (J.K. Simmons), um professor famoso tanto pela qualidade do seu trabalho quanto pelos seus métodos questionáveis de instrução. Embora o homem não pareça nem um pouco impressionado com o rapaz, ele convida – ordena – Andrew para sua banda. A partir daí vemos a transformação de Andrew, de um garoto ambicioso para um obcecado pelo sucesso.

O filme já inicia sugerindo o quão sufocante é a trama que iremos assistir. Uma tela preta, acompanhada por batidas que gradativamente vão se tornando mais frenéticas, transportando uma sensação de intensa claustrofobia. O longa é inteiramente permeado por esse sentimento, principalmente durante as cenas de música. Aqui o jazz deixa de ser um prazer pra ser um instrumento de tortura.

Todo o cuidado estético prova que não se trata apenas de um esmero, tudo é muito bem arquitetado e ajuda a contar a história ao mesmo tempo que provoca diversas reações no espectador. Os cortes rápidos, a montagem acelerada, os super closes nos rostos de seus personagens, os planos detalhes nas mãos e instrumentos, são responsáveis pela pegada eletrizante de Whiplash.

Aí você se pergunta: estamos mesmo falando sobre um filme “de música”? Pois é, estamos. Os números musicados de Whiplash são uma constante tensão. O que seria a zona de combate de um filme “de guerra”, aqui é a sala de ensaio ou um palco de teatro. O trabalho de montagem e de som são dignos de aplausos nessas sequências, a sincronia da música junto com os cortes e jogos de câmera são um show para os olhos e os ouvidos.

Miles Teller encontra seu melhor momento na pele do bateirista Andrew. Mesmo já tendo mostrado seu potencial dramático no excelente The Spectacular Now, em Whiplash ele pôde brilhar ainda mais. Seu Andrew passa do jovem inseguro que teme convidar uma garota pra sair, ao homem que dispensa uma garota sem muita cerimônia porque acha que ela pode atrapalhar seu objetivo de se tornar “o melhor”. Teller consegue transitar por esses dois lados com muita eficácia. O receio de Andrew de ser mais um musicista, tal qual seu pai que é um escritor desconhecido, extrapola qualquer sentimento e o garoto não mede sacrifícios para alcançar seus objetivos. Ao mesmo tempo em que a gente torce pelo seu sucesso, a gente deseja ainda mais que ele se torne menos o babaca que ele passou a ser.

Toda a transformação pela qual passa o personagem principal é causada pelo abominável Fletcher. J.K. Simmons vem recebendo diversos elogios, com chances de levar para casa o Globo de Ouro pela atuação em Whiplash, e quem sabe ainda concorrer ao Oscar, o que seria realmente válido. Mesmo que de início Fletcher pareça caricato, ao longo da projeção ele vai se humanizando; o que não significa que gostaremos mais dele. A relação professor-aluno ali está mais para marechal-solado. Quando ele entra na sala, o silêncio paira, todos estão em pé e as cabeças abaixadas. Sob o seu comando, admitir que errou é um erro, errar mais ainda. Nada escapa dos ouvidos de Fletcher, um segundinho só e ele já fisga e encontra o problema. É sob gritos, humilhações verbais e agressões físicas que se dá um dia nos domínios de Terence Fletcher.

Lágrimas, suor e sangue é um pouco do que sobra depois de um intenso dia de ensaio daquela banda. Fletcher almeja encontrar o “melhor”, e por breves momentos, muito breves mesmo, pensa que “ele” poderia ser Andrew. Com ataques pessoais aos pais do garoto e tamanha pressão psicológica, ele desperta uma quase loucura e transforma a vida de Andrew num verdadeiro inferno. Mesmo agindo como monstro, o maestro tem uns poucos momentos mais gentis e sensíveis, e são essas alterações abruptas no seu comportamento que torna J.K. Simmons um dos maiores nomes do ano. Durante toda a projeção um fiapo de incerteza permeia o espectador – algo nos diz que há uma razão pra tamanha voracidade, e que podemos compreender aquele homem, quem sabe até sentir empatia por ele, que veremos ele redimir-se mais na frente – tamanha complexidade do personagem.

Damien Chazelle é o nome do responsável por essa obra sem igual. Nesse seu primeiro grande trabalho, ele conduz tudo de uma forma extremamente pessoal e nos leva à um clímax de tirar o fôlego. Chazelle também é músico e conta que o filme é quase que inspirado em sua própria adolescência, e aí paramos pra pensar o quão sério essas marcas podem ficar em alguém. Quantos jovens não passam por isso nas mãos de professores ou até mesmo de seus pais? Whiplash – Em Busca da Perfecição é um projeto ousado e inesquecível, explora e questiona os limites que existe quando se quer alcançar a grandeza a qualquer custo.

Whiplash – Em Busca da Perfeição (Whiplash, 2014, EUA)

Avaliação do editor:

5
(5/5)
Sinopse: Um jovem baterista (Miles Teller) sonha em ser o melhor de sua geração. Com o treinamento de o revenciado e impiedoso mestre do jazz, Terence Fletcher (JK Simmons), o músico começa a ultrapassar todos os seus limites, inclusive tomando atitudes que jamais pensou que tomaria.

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