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Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

Dakota-Johnson-as-Anastasia-Steele-taken-from-the-trailer-of-their-film-Fifty-Shades-Of-Grey-which-has-been-releasedChega aos cinemas de todo o mundo nesta semana mais um fenômeno literário responsável por quebrar recordes de venda nos últimos três anos. Se você nunca leu, com certeza ao menos já ouviu falar do best-seller Cinquenta Tons de Cinza, que se lançou em meio à muita polêmica, por trazer ao público, com ricos detalhes, o mundo do sexo e do sadomasoquismo. Com a versão cinematográfica não poderia ser diferente. Desde que anunciada, ela vem envolta de expectativas, desde os fãs até os haters, passando por aqueles que, assim como esse que vos escreve, não mantêm relação nenhuma com a série.

O time que encabeça a produção é formado por mulheres. E.L. James, autora do romance, é aqui produtora, o roteiro fica à cargo de Kelly Marcel e a direção de Sam Taylor-Johnson.

Ao sair da sala de cinema a única sensação era de dúvida: seria o resultado desastroso ou só totalmente desinteressante? A trama segue a estudante de literatura Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o bem-sucedido Christian Grey (Jamie Dornan). Não demora dois minutos para que sejamos apresentados aos protagonistas, e eles um ao outro. Anastasia precisa entrevistar Christian como favor para sua colega de quarto Kate (Eloise Mumford) e ela, é claro, já chega caindo nesse primeiro encontro, sendo socorrida pelo homem. E vejam só, é ali, no chão, que eles cruzam seus primeiros olhares. O que segue é uma conversa constrangedora, onde fica explicita a timidez e o desnorteamento da garota em relação ao rapaz enigmático e intimidador.

Já nessa cena inicial surgem os primeiros indícios de que as coisas tem grandes chances de ir por água abaixo. Os diálogos são risíveis, e parecem ainda pior saindo da boca dos atores, que se esforçam mas não podem fazer muito. A direção não ajuda, alguns movimentos executados a torto e a direto por eles soam mal dirigidos e inverossímeis. A queda e o levar o lápis aos lábios de Anastasia são os maiores exemplos disso. Além do fato de que tudo parece muito semelhante a qualquer cena de qualquer filme que use esses mesmos perfis de personagem. A sequência se finaliza com uma despedida que não se faria tão brega se não se repetisse num outro momento.

O segundo encontro dos protagonistas é na loja onde Anastasia trabalha. O espectador se pega confrontado na dúvida se foi só uma coincidência – o que é inconcebível – ou se Christian tem diploma de stalker, o que ao longo do filme parece se provar verdadeiro. Logo temos a clássica cena de livrar a moça do perigo, quando eles passeiam na rua, e o momento de epifania de Christian ao perceber que não pode levar aquilo adiante.

Ao longo do filme vamos adentrando nessa complexa relação. Ana descobre que de romântico Christian não tem nada – a não ser talvez levá-la para passear de helicóptero (?) -, mas isso parece deixá-la apenas mais fixada nele. Há um sentimento de posse por parte do rapaz com a garota, que passa a fazer sentido quando entendemos que tipo de relação ele tem a oferecer. Christian quer uma verdadeira escrava sexual, em troca oferece tudo do bom e do melhor. O acordo é previsto num contrato, que ele oferece a Ana para que ela leia e avalie. A cena em que eles se reúnem para reaver cláusulas do contrato é a mais divertida, provocativa e bonita visualmente.

As sequências de sexo não tem nada que não já fora visto. São bem fotografadas, montadas, coreografadas, e fazem bom uso da trilha sonora. A câmera não busca outra pessoa que não Dakota Johnson, desde às curvas do seu corpo até a expressão de prazer em seu rosto. James Dornan é quase um coadjuvante nessas.

Aliás, nenhum personagem secundário se destaca nas duas horas de filme, não há espaço pra eles, nem mesmo alguma tentativa. Conhecemos muito rapidamente a amiga de Ana, um ou outro interesse romântico, sua família, a família de Christian e seu empregado. Eles não possuem nenhuma função a não ser se impressionar e tecer comentários sobre o casal.

Há diversos momentos realmente embaraçosos em Cinquenta Tons de Cinza. James Dornan, que não faz outra coisa a não ser fazer uma cara carrancuda, é responsável por soltar os piores quotes do filme. A primeira vez em que acontece, nós até nos perguntamos se entendemos errado ou não. O que dizer do momento em que Anastasia é castigada com palmadas na bunda por desobedecer alguma ordem tola do Sr. Grey?

Se não há muito o que falar de Dornan, muito mais não há de Dakota Johnson. Ela e sua Anastasia consegue atrair certa simpatia do público sim, e no clímax do filme parece ganhar um pouco de lucidez, mas não tanto para que sua personagem escape de ser unidimensional. Nenhuma informação que se obtêm da personagem é válida, pouco importa sua família, seu curso, seu círculo de amizade, nada daquilo resulta na construção de Anastasia Steele.

Como se já não bastasse, chegamos então a um problemático final, onde nada se resolve. Pelo contrário, arma-se um problema, que mais cedo ou mais tarde aconteceria, mas que não valida, nem justifica as duas horas de filme. Sim, Cinquenta Tons de Cinza é um filme onde realmente muito pouco acontece. Se, como tem-se ouvido falar, ele é melhor que o livro, devemos então nos solidarizar com os realizadores e mais ainda com os leitores, que gastaram muitas horas dos seus dias consumindo algo de tão duvidosa qualidade.

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015, EUA)

Avaliação do editor:

(2/5)

Sinopse: Anastasia Steele é uma estudante de literatura de 21 anos, recatada e virgem. Uma dia ela deve entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey. Nasce uma complexa relação entre ambos: com a descoberta amorosa e sexual, Anastasia conhece os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do sádico Grey.

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Evandro Lira
Evandro Lira
Estudante de Cinema e Audiovisual, escreve para o Café de Ideias com a desculpa de falar de uma das coisas que mais gosta, o cinema.

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