Crítica: Sniper Americano

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Desde a estreia de Sniper Americano nos Estados Unidos, o filme tem sido um sucesso de público, faturando mais de US$ 300 milhões em casa. E junto com todo o sucesso, vem as polêmicas. Ele vem sendo acusado pela imprensa de mostrar apenas um lado da coisa e até mesmo de promover a guerra. Ao assistir ao longa fica fácil entender o porquê de tamanhas críticas, umas parecem justas e evidentes mas outras abrem espaço pra um “não é bem assim”.

Sniper Americano é o novo filme do premiado Clint Eastwood, que conta a história do franco-atirador da marinha dos EUA, Chris Kyle. Ele, que esteve em quatro missões no Iraque, foi responsável por mais de 160 mortes confirmadas (estima-se que foram mais de 200). O roteiro, de Jason Hall, é adaptado da autobiografia do atirador, que junto com mais dois amigos, publicou as experiências vividas por ele na última década. Aqui mesmo já se confirma que sim, Sniper Americano é sob o ponto de vista do biografado e que sim, ele vai ser modelado pelo contexto pessoal do personagem e obviamente num contexto norte-americano.

A cena de abertura já convida o espectador a se ajeitar na poltrona e respirar fundo. Chris Kyle (Bradley Cooper) está prestes a atirar numa criança que carrega um explosivo que deve matar sua equipe. E ali podemos sentir o exitar de uma decisão que precisa ser tomada em segundos e que vai afetar a vida de várias pessoas e até mesmo o rumo da guerra. A tensão é interrompida por uma imersão de flashbacks que retomam a infância de Chris, quando vemos que a violência foi sempre naturalizada pela figura do seu pai, que o ensinou a usar um rifle, a caçar, e que é adepto da filosofia de que se alguém mexer com os seus, você deve reagir. Anos depois, vemos o lado texano do personagem falar mais alto, Chris era um jovem caubói, que por logo desiste desse sonho e finalmente aos trinta anos resolve seguir carreira militar.

Depois de demonstrar talento com uma arma e engravidar sua esposa Taya (Sienna Miller), Chris Kyle estreia sua primeira missão. Realmente incomoda um pouco a maneira, ou talvez a falsa ingenuidade, como se encara o motivo das tropas americanas partirem pro Iraque. É ao ver na televisão os atentados ao World Trade Center que o protagonista parece bastante decidido a se dedicar ao seu trabalho, o que mesmo assim condiz bastante com sua personalidade patriota e sua visão de mundo, visão essa que não é muito difícil de se encontrar por lá.

No Iraque, voltamos a ótima cena de Chris tendo que decidir atirar ou não numa criança. A partir daí seguimos o personagem em meio a um reduto de poeira, munições e sangue. Enquanto os soldados invadem ou encontram novos alvos, Chris Kyle precisa ficar do alto, distante, preparado para atirar em qualquer um que apresente perigo para seus colegas. O que ele não contava era com a presença do atirador inimigo Mustafa (Sammy Sheik) que tal como ele, parece não errar seus alvos. A partir daí se estabelece um conflito quase pessoal que resultará num confronto decisivo.

Mas, por incrível que pareça, é nos Estados Unidos, ao lado de sua família, que Chris parece viver seus momentos mais difíceis. Taya sofre cada vez que Chris precisa se afastar e está sempre em conflito com o papel dele de marido e pai, enquanto ele se vê confrontado sempre que frente a ela. Ao mesmo tempo em que é visto como herói pelos colegas militares, em casa Chris vê-se um homem fracassando em sua vida pessoal.

A percepção que Chris Kyle tem de si mesmo e a visão acerca da guerra é abordada com certo distanciamento pelos realizadores. Sim, poderia ter havido mais questionamentos e um trabalho melhor em cima disso, coisa que o Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow faz incrivelmente bem, mas a reflexão sobre a violência e suas consequências estão lá sim. Chris demonstra que uma das maiores frustrações de tudo isso é deixar um amigo morrer, não conseguir defendê-lo e a maneira como ele lida com a guerra sempre que está em casa mostra o que ela se torna para um ser humano. Dizer que Eastwood a glorifica é cruel e injusto.

Injusto também é dizer que Bradley Cooper (que também é produtor aqui) não merecia uma vaga na categoria de Melhor Ator do Oscar. Ele está extremamente bem como Chris Kyle. Se comprometeu e muito com o papel, estudando os trejeitos do real Chris Kyle, ganhando peso, trabalhando o sotaque texano e conhecendo armas, como o rifle. Sua atuação é concisa, demonstra com sucesso a paciência do homem que mira e mata sem muito tempo pra refletir, um homem calado, que não compartilha suas frustrações e que explode algumas vezes.

A qualidade técnica do filme é, como se espera de um filme do porte, muito boa. Clint Eastwood conduz muito bem as cenas de ação, nos presenteia inclusive com uma ótima sequência numa tempestade de areia. O erro mais absurdo e desnecessário do pessoal de efeitos visuais é na cena em que os personagens de Cooper e Miller estão conversando no quarto, com o seu filho recém-nascido indo de um braço a outro. O bebê, na verdade, é um boneco. Se era frustrante perceber isso com a falta de movimentos, quando ele se mexe é pior ainda, porque o acréscimo de efeitos digitais ali é patético, feio e muito artificial. Duro pensar que aquilo passou no corte final.

Por fim, o saldo que se tira de Sniper Americano é positivo. Clint Eastwood e sua equipe fazem um trabalho de qualidade, ainda que ele não seja totalmente franco com o espectador. A violência e o que ela reverbera são sim reconhecidas e sentidas aqui, assim como por todas as pessoas e nações, e vê-la sendo representada nas telas é sempre um exercício no mínimo avassalador.

Sniper Americano (American Sniper, 2014, EUA)

Avaliação do editor:

(4/4)
(4/5)
Sinopse: Adaptado do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History, este filme conta a história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), um atirador de elite das forças especiais da marinha americana. Durante cerca de dez anos, ele matou mais de 150 pessoas, tendo recebido diversas condecorações por sua atuação.

1 COMENTÁRIO

  1. Este filme eu gostei, porque eu nunca tinha visto Bradley Cooper e eu acho que ele fez um grande papel, ele foi visto em tudo o que lhe custou ser como o verdadeiro Kyle.

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