Crítica: Love

A relação entre o amor e o sexo é contada em "Love" sob a desconstrução da vida de Murphy, personagem de Karl Glusman, com direito a cenas de sexo em 3D.

Polêmico e tão esperado pelo público, Love atrai aos cinemas os curiosos pelo burburinho causado pelo seu teor altamente sexual, após a polêmica exibição no Festival de Cannes. Mas o diretor Gaspar Noe deixa claro, assim que começa o filme – e reafirma isso lá pelo meio, utilizando da metalinguagem – que a produção é, primariamente, sobre o amor em suas diversas fases de um relacionamento.

Em “Love” conhecemos Murphy (Karl Glusman), um cineasta que vê sua relação amorosa com a jovem Electra (Aomi Muyock) desmoronar e acaba aprisionado num indesejado casamento com Omi (Klara Kristin). Noe aposta na não-linearidade para prender o público e envolvê-lo na trama, que inicia mostrando a vida de Murphy nos tempos atuais e faz uma pausa para revisitar o seu passado, através de flashbacks, até retornar aos tempos atuais e realizar o desfecho da história alternando o desenvolvimento do personagem no presente com uma rede alternativa, criada pelos desejos de sua mente.

A não-linearidade de “Love” serve como apoio para a inserção do sexo no filme. Para Murphy, as melhores coisas da vida são o amor e o sexo e cada ato de amor é retratado no filme através do sexo. A montagem proposta por Gaspar Noe traz uma boa relação entre o desenvolvimento do roteiro e as inserções das cenas de sexo.

O que pesa contra “Love” é o excesso desse apelo sexual – cada cena de sexo se encaixa no filme com um propósito, que se perde ao tornar-se cansativa pelo seu longo tempo de exposição. É inevitável compará-lo aqui com “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, que embora tenham perfis diferentes, soube dosar bem estas cenas sem deixar que a história perdesse o fôlego.

A fotografia de Benoît Debie se relacionou expressivamente com o trabalho de Noe, utilizando de filtros com cores quentes – destaca-se o vermelho – para retratar flashbacks e o estado mental das personagens, bem como a forma com que explorou os enquadramentos estáticos nas tomadas de conteúdo sexual. A trilha sonora, que usou de intensas batidas eletrônicas mixadas a conhecidas músicas clássicas, deu o tom necessário para que o público pudesse perceber o que cada personagem sentia ao longo dos acontecimentos.

A ideia de desenvolver “Love” em 3D pode ter sido só uma estratégia de marketing – atraiu muitos curiosos que além do sexo, queriam vê-lo saltando da tela. Utilizar desse recurso funcionou ao reproduzir profundidade as cenas, na maioria das vezes isolando Murphy mais próximo câmera em relação ao ambiente e deixando claro o seu estado de solidão e abstinência de Electra. A quem esperava a tão comentada cena da ejaculação que sai da telona, o efeito pouco funciona.

Com uma fotografia e trilha sonora que combinaram bem com a trama e os efeitos 3D que contribuíram para aproximar o espectador da decadência que se tornou a vida de Murphy, Gaspar Noe promove uma narrativa bem desenhada ainda que possua um roteiro não-linear, mas desconstrói esse trabalho com o excesso de sexo, que deixa de ser necessário e torna-se apelativo. Ainda assim, traça com sucesso o perfil psicológico das personagens, mostrando as relações do amor com o sexo e vice-versa, e o quanto a falta ou o excesso desses dois itens afetam um relacionamento amoroso.

Por: Paulo Cavalcante

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