Crítica: Futuro Junho

Com personagens “paupáveis”, Maria Augusta Anjos registra paradoxos da sociedade brasileira em seu longa.

O documentário Futuro Junho carrega no seu nome lembranças de períodos de lutas recentes para o Brasil, dirigido por Maria Augusta Anjos a produção retoma esses cenários com a participação de 4 personagens, o longa os apresenta com a tentativa de retratar uma parcela da pluralidade da sociedade brasileira a partir de contradições.

Em Junho de 2013 aconteceram diversas manifestações ao redor do Brasil que traziam questionamentos sobre diferentes âmbitos sociais. Mais ou menos no mesmo período de 2014, aconteceram outras manifestações, dessa vez em menor proporção. O alvo era os gastos com a Copa do Mundo. Como um país com problemas nos serviços públicos estava gastando dinheiro com um evento internacional, ao invés de investir em melhorias sociais? Esta era uma das perguntas que levava os manifestantes as ruas.

Em meio a esse contexto Maria Augusta junto com sua equipe escolhe quatro personagens que irão estar no documentário: um motoboy, um metalúrgico, um metroviário e um representante do mercado financeiro. A partir desses diferentes lugares de fala a narrativa se constrói de forma sólida, fazendo surgir situações que vez ou outra somos pegos questionando.

O empresário do mercado financeiro representa o típico comentarista convidado pr emissoras de televisão, com um discurso capitalista, o personagem está sempre em meio a discussões sobre o mercado, fazendo surgir alfinetadas relacionadas as politicas e aos governantes, além do incentivo a realização da Copa, contrariando os manifestantes que saíram as ruas nas vésperas do evento. O metroviário que veste a camisa do sindicato e é um dos líderes da greve dos metrôs que aconteceu nas vésperas da Copa. Sai as ruas reivindicando melhorias para sua classe, tentando articular forças para ter as exigências atingidas. Em meio a muitas manifestações e gritos por melhorias vemos a brutalidade da polícia para conter estes trabalhadores.

O metalúrgico que trabalha numa montadora de carros, segue sua rotina metódica dentro da fábrica e num viés sindicalista como o personagem anterior, participa de reuniões entre os operários para ficar por dentro do contexto da empresa e do mercado. Sua preocupação junto com os colegas de trabalho é saber se vão conseguir assistir ao jogo do Brasil e a notícia das possíveis demissões que estão por vir. O motoboy, personagem que mais cresce durante a narrativa, acabara de comprar uma casa no morro e com a ajuda financeira da esposa paga as mensalidades da casa – quase – própria. Uma dos diálogos mais chocantes é quando uma vendedora de planos funerários visita sua nova casa e tenta convencê-lo a garantir sua jazida e a da sua família, nesse cenário é possível perceber como a realidade da família se torna oportunidade de negócio. Como diria BNegão & Os Seletores de Frequência, “Enquanto uns choram, outros se apressam pra vender o lenço”.

As tramas reais desses personagens vão se desdobrando ao longo do documentário, expondo feridas sociais do nosso país. Paradoxos que a muito tempo procuramos respostas e engana-se você caso pense que o filme com seus personagens tão palpáveis nos mostra soluções. Futuro Junho é assim como todos os outros filmes um ato político e que não busca mostrar o certo ou errado, mas nos dar motivos para reflexões.

Quanto a fotografia, o filme é extremadamente delicado com suas imagens. Em alguns momentos é possível esquecermos que trata-se de um documentário pela naturalidade dos seus personagens que parecem ter esquecidos que suas vidas reais estavam sendo filmadas. Parabéns também a equipe que conseguiu invisibilizar suas câmeras. O som também não fica para trás no quesito qualidade, as cenas gravadas em meios as manifestações tem seus sons tão naturais que até esquecemos que filmar em meio a esse cenário é perigoso devido a vários fatores externos.

Futuro Junho venceu a competição da Mostra Competitiva de Longas-Metragens do VIII Janela Internacional de Cinema do Recife na categoria Melhor Filme. Um prêmio merecido pelo seu sucesso nos quesitos técnico, humanístico, dramático e político.

Por: Lais Rilda

 

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