Crítica: O Regresso

Leonardo Dicaprio no papel de Hugh Glass em O Regresso (Distribuição/Fox Filmes)

O Regresso narra a jornada de um grupo de exploradores e comerciantes que trabalham com aquisição e venda de pele de animais e sua relação nem sempre cordial com os grupos de indígenas com que fazem tal comércio. Entretanto, tal plot é apenas um plano de fundo para diversas histórias paralelas de maior complexidade: o pai que dá seu sangue para manter a integridade do filho, a equivocada associação entre um povo indígena e um povo selvagem e a doentia ambição de pessoas que estão dispostas a qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

Alejandro G. Iñárritu deixa sua marca em outro filme esteticamente perfeito. Diretor do aclamado e premiado Birdman, Iñárritu consegue extrair de uma história que possivelmente já se tornou um clichê dos roteiros, relação indígena-‘homem branco’, algo muito mais peculiar e profundo em tal situação. O diretor soube focar nas emoções dos personagens utilizando câmeras que evidenciam as expressões faciais dos atores, e também sua marca registrada em Birdman, os planos-sequência, mesmo que bem menos utilizados ainda assim foram possíveis de se identificar.

Leonardo Dicaprio é a estrela principal do longa e sua indicação ao Oscar é uma rendição por todo esse tempo no qual Leo vem fazendo um bonito trabalho sem tal reconhecimento. A indicação e a possível premiação vieram no momento certo, pois sua atuação em O Regresso é algo louvável. Utilizando a experiência e a sagacidade de Iñárritu, Dicaprio consegue se despir de todos os outros personagens já vividos e imprime nas telas algo em que o vemos dar, literalmente, seu sangue. Tom Hardy também é de plausível competência e destaque. Tom que vive o antagonista, o interpreta de forma singular sem muitas vinculações ou trivialidade, tornando o personagem mais humano (mesmo dentro de seu papel como antagonista).

A tão falada fotografia do filme é do Emmanuel Lubezki, que já trabalhou bastante com o próprio Iñárritu (Birdman, To Each His Own Cinema) e Alfonso Cuáron (Gravidade, The Great Expectation, Filhos da Esperança), é o trunfo estético do filme. A função da fotografia em um filme é encaixar a iluminação e o diálogo do filme com o público, em outras palavras, saber onde deixar claro e onde manter escuro fazendo com que isso valorize a cena e os atores. Lubezki sabe fazer isso com distinção. A trilha sonora apesar de bonita, poderia ter sido muito melhor trabalhada. Por ser um filme em que todo o set é outdoor, muitos elementos sonoros naturais são representados no longa, o que essencialmente não é algo negativo, pois confere ao filme autenticidade e originalidade. Entretanto, utilizar tais elementos em algumas cenas pareceram ser mais ruídos do que efeitos.

O Regresso é mais um daqueles filmes que são feitos para premiações: bons atores em incríveis atuações, um perfeito trabalho técnico (que geralmente envolve fotografia, direção de arte, direção e trilha sonora) e coincidentemente, ou não, são lançados no período das premiações. Felizmente, o público só tem a ganhar com tal ‘oportunismo’. Filmes de qualidade e de maior complexidade é o que a academia vem premiando nos últimos anos, o que dá espaço para os ‘não-blockbusters’ terem sua vaga garantida nas salas dos cinemas.

Por: Wilson Netto

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here