Crítica: Aquarius

Evocando sensibilidade do começo ao fim, Aquarius lida com os sintomas da vida em sociedade e se faz uma obra marcante, um presente para o cinema nacional.

aquarius_h_2016O novo filme de Kleber Mendonça Filho, Aquarius, começou a ter suas primeiras exibições na última semana por aqui no Brasil. Lá fora tem conquistado prêmios, aclamação da crítica e participações em festivais importantes. Ele chega em meio a muita mudança e debate no país, mas se engana quem acha que é um filme que só atua desse ponto de vista político, Aquarius evoca enorme sensibilidade dos primeiros minutos até os créditos finais.

Clara, a personagem principal vivida com maestria por Sônia Braga, é sem dúvida uma das mulheres mais incríveis do nosso cinema. Muita força, verdade e inspiração emanam dela, que viveu toda a sua vida naquele apartamento do edifício Aquarius, onde sua família viveu muita coisa, onde ela criou seus filhos e se curou de um câncer. Clara resiste a tudo, mesmo com todos os outros apartamentos vazios e com a pressão da construtora para que ela venda o seu.

Nenhum dos personagens do filme estão ali para ser um arquétipo de algo, eles são singulares ao mesmo tempo em que é muito fácil reconhece-los dentro das nossas vidas, seja pelas ótimas atuações (a escolha de Kléber de também usar não-atores ajuda nisso), pela mise-en-scene, ou pela qualidade daqueles personagens.

A narrativa de Aquarius, diferente de O Som ao Redor, é mais convencional, ainda que consigamos ver características de Kléber Mendonça Filho, seja elas temáticas, como o sentimento de afetividade que ele tem pela cidade do Recife, pela denúncia que seus filmes fazem; ou estéticas, como a escolha de trazer fotos antigas na introdução do longa.

A maneira como o cineasta conduz a tensão do filme à medida que ele se aproxima do final é excelente. Há uma cena que comprova a destreza de Kléber, onde pelo enquadramento e movimento de câmera ele nos faz achar que algo está para acontecer, para logo descobrirmos que não, aquilo não vai acontecer.

Aquarius reflete vivências cotidianas das grandes cidades do Brasil, como o nosso costume de não preservar o passado, de não preservar nossas memórias, de simplesmente substituir o velho pelo novo. E isso é retratado de diversas maneiras, não só pelo plot principal, como também por todos os diálogos e situações que são apresentados, que de longe podem aparecer banais, mas que carregam significados que enriquecem essas reflexões.

Lidando com esses sintomas da nossa vida em sociedade, Aquarius se faz uma obra marcante para qualquer um que se dispõe a assistir, e um presente para o cinema nacional.

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