Crítica: Eu, Daniel Blake

Provocativo e intrigante, o filme é um protesto recorrente pelos direitos sociais, trazendo atuações emocionantes diante de um roteiro e direção afiados.

Dave Johns dá vida ao protagonista de "Eu, Daniel Blake", personagem título do premiado longa de Ken Loach (Reprodução/BBC Films)
Dave Johns dá vida ao protagonista de “Eu, Daniel Blake”, personagem título do premiado longa de Ken Loach (Reprodução/BBC Films)

Tela escura. Ouve-se a conversa de um homem com uma profissional da saúde, que faz uma dezena de perguntas irrelevantes frente ao problema que aquele indivíduo parece ter. Apenas o som é o bastante para compreender o dilema que o personagem título de Eu, Daniel Blake estaria por enfrentar.

É difícil encontrar quem nunca tenha enfrentado um longo período ao telefone escutando a música irritante de espera por um atendente de um call center ou mesmo quem nunca tenha precisado resolver algo em algum setor público onde foi preciso encarar uma infinidade de burocracias. Embora se discutam as leis inglesas, o que vemos em “Eu, Daniel Blake” é algo fácil de se identificar, cujas situações não são nada distintas das enfrentadas pela sociedade no nosso país. No longa, o cineasta Ken Loach se posiciona contra o governo ao defender minorias que se vêem reféns da burocracia dos órgãos estatais, neste caso, na busca pela concessão de um benefício social que é direito do cidadão.

Loach acerta ao destacar a cara de pau do sistema político, que dispõe à sociedade benefícios que não atingem o seu público alvo; existem apenas para cumprir leis e manter as boas aparências, mas por baixo dos panos o que se vê é um grande desinteresse em fazer acontecer a disponibilização a quem necessita desses programas sociais. Sob essa perspectiva, o cineasta cria personagens que sensibilizam ao demonstrar sua busca por respeito como ser humano e cidadão ou ainda, aqueles que vão além e movem barreiras para manter a si e ao próximo.

A trama, embora discorra lentamente, revela um roteiro afiado (de Paul Laverty) no desenvolvimento dos personagens, suas ligações e sua caminhada ao clímax. Em seus cem minutos, “Eu, Daniel Blake” nos apresenta a uma atuação tocante de Dave Johns na pele do personagem título e revela Hayley Squires como Katie em momentos de intensa comoção. O ponto forte da união dos personagens e como o espectador se relaciona com eles vai além do sentido que a trama toma, ficando mais intensa com a carga dramática de algumas tomadas, como os momentos desesperadores de Katie atormentada pela fome e quando Daniel descobre o caminho que a amiga toma para solucionar seu problema.

O sentimentalismo e a beleza da amizade, ainda que num panorama triste, se reafirma nos ideais propagados no desfecho do longa, que se traduz numa sequência tomada por emoções. Loach consegue através de Eu, Daniel Blake não só tocar o coração do seu público, mas construir uma história capaz de fazer refletir sobre as similaridades com a nossa realidade e talvez, acender um alerta acerca da situação desgastante cuja sociedade está submetida através das imposições políticas que mais favorecem a elite do que aos necessitados.

*Visto no IX Janela Internacional de Cinema do Recife em outubro/2016.

Por: Paulo Cavalcante

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