- Publicidade -

Crítica: Animal Político

A busca pelo sentido da existencialidade se torna um dilema para uma vaca, protagonista de Animal Político, primeiro longa-metragem do cineasta pernambucano Tião.

Cena de "Animal Político", do cineasta Tião (Foto: Divulgação)
Cena de “Animal Político”, do cineasta Tião (Foto: Divulgação)

- PUBLICIDADE -

A escolha de uma vaca como protagonista de um filme talvez tenha sido o menor dos desafios do produtor Leonardo Lacca e do diretor Tião na execução de Animal Político. Enquanto Lacca trabalhou impecavelmente na preparação de elenco de Aquarius (2016) e arrancou elogios com o premiado Permanência (2014), neste novo filme há a troca da atuação e da delicadeza da dramaturgia pelo investimento na imagem e suas inúmeras interpretações – um câmbio arriscado que funcionou à sua maneira.

A vaca surge na tela como protagonista com o objetivo de provocar inquietações, fazendo jus ao título do longa. O animal é uma figura metalinguística e faz as vezes de um ser humano – trabalha, vai pra balada, faz compras, cuida da beleza e passa um tempo com a família. Mas a vaca, numa imperativa narração que percorre todo o roteiro, não hesita deixar claro que algo lhe falta.

- Advertisement -

A partir dessa ausência de algo que ainda é desconhecido que se toma uma discussão política. O conceito de Animal Político é definido por Aristóteles como sendo o homem livre que goza da liberdade por sua competência em mandar, enquanto os mais fortes porém de pouco intelecto são máquinas criadas para obedecer. Essa premissa histórica serve fortemente como base para o embate homem versus sociedade, cujo pensamento se constrói – e se desconstrói – ao longa da caminhada da vaca em busca de uma resposta para o seu vazio existencial.

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

As figuras políticas aos poucos vão se descascando e ficando claras. Homens engravatados seguem um andar robótico, desfilando sem cabeça, como um zumbi. Num outro capítulo, A Pequena Caucasiana que cresce sozinha numa ilha, sem pudores e quase que completamente nua, vestindo apenas um par de botas e agindo de maneira instintiva quando o assunto é sobrevivência. O paradoxo mencionado por Aristóteles no séc. XII faz cada vez mais sentido aqui. Mas ainda que o homem atinja o status quo de liberdade, ainda assim é sujeito às dominâncias políticas que regem a sociedade. É o homem que domina e é dominado, como a moça que domina o coelho e é dominada pela sua Bíblia, também conhecida como regras da ABNT.

Animal Político se utiliza dos percalços da vida em sociedade para construir sua trama, inicialmente um tanto desconexas mas que acabam por se encontrar. A referência a 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), clássico de Stanley Kubrick, parece passar rapidamente como apenas uma referência, mas tem sua retomada tempos depois. O monolito, objeto que os macacos tentavam decifrar, deixava de ser prioridade à primeira vista da vaca – já que primeiramente ela precisava resolver o seu problema existencial para só então se preocupar com o problema dos outros -, mas acaba tornando-se uma indagação própria quando faz o caminho reverso.

Diante de um possível encontro com o seu objeto de desejo, decifrar o porque da sua existencialidade parece não ser tão fácil nem um tanto compreensível. O que fica é que, depois de dançar numa festa, assistir TV com a família e ser importunada pela irmã caçula ou até mesmo “fazer as unhas” e “lavar o cabelo”, a estranheza é deixada de lado e se obtém um reflexo que mostra um caminho que percorre até o mais próximo da nossa realidade.

*Visto no IX Janela Internacional de Cinema do Recife em outubro/2016.

Por: Paulo Cavalcante

 

- PUBLICIDADE -
Paulo Cavalcante
Paulo Cavalcantehttp://www.cafedeideias.com
Professor, atua na internet há mais de dez anos produzindo conteúdo sobre séries e cinema, aprecia a sétima arte e a dramaturgia para as diferentes telas.
Leia mais em:

Conteúdo relacionado:

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here