Crítica: Elle

Da humilhação à sua grande virada, Paul Verhoeven traz em Elle uma protagonista forte, decidida e sem medo de julgamentos.

A francesa Isabelle Huppert protagoniza "Elle", de Paul Verhoeven (Reprodução/Sony Pictures)
A francesa Isabelle Huppert protagoniza “Elle”, de Paul Verhoeven (Reprodução/Sony Pictures)

Em Elle, sua primeira produção cinematográfica francesa, Paul Verhoeven se desafiou a lidar com um tema aberto à discussões polêmicas – o estupro. Entregou a missão de dar vida a um papel tão marcante em seu filme – a protagonista – a Isabelle Huppert, parisiense que tem uma carreira consolidada e com grandes sucessos recentes como “O Que Está Por Vir” (2016) e “Mais Forte que Bombas” (2015).

Agressivo, Paul Verhoeven tem em seu currículo de cineasta um histórico de filmes que expressam a desobediência, a revolução e a liberdade. Clássicos como Robocop (1987) e Vingador do Futuro (1990) são exemplos de produções dirigidas por ele que retratam a forma como os personagens vão contra regras ou princípios em favor de si e/ou da sociedade. Outra de suas produções, “Instinto Selvagem” (1992) poderia ser uma crônica provocante que teria servido de inspiração para Elle, mas o holandês vai muito além dos seus blockbusters e faz do longa francês um thriller psicológico cujo texto há de ser trabalhado sobre enorme responsabilidade.

Elle inicia com o estupro da protagonista, a poderosa e profissionalmente bem sucedida Michèle Leblanc. Embora o estupro seja ofensivo, o ato desperta não só um sentimento de dor e violação, mas leva à tona em Michèle suas fantasias eróticas e um desejo de vingança. A medida que a dona de uma desenvolvedora de games parece demonstrar desinteresse pela busca do estuprador e deslegitimando uma luta recorrente aos movimentos feministas, Verhoeven aposta em grandes viradas na trama para servir de alicerce para um thriller inesquecível.

Entre um ato e outro, Michèle passa de vítima a heroína, dando a volta por cima e mostrando quem está no controle. Sua transformação acontece não só diante de sua violação e humilhação, mas também pelo convívio com os fantasmas que criou e a criaram – seu pai, um serial killer famoso; sua mãe, idosa com os pés na igreja para casar-se com um jovem interesseiro, um filho estúpido que parece ter estacionado seu amadurecimento na pré-adolescência, o ex-marido, sua amiga e seu amante. Não bastasse isso, lidera um time de profissionais na sua empresa formada quase 100% por homens, uma realidade do mundo dos games.

Com base na trama da obra literária “Oh…” de Philippe Djian, Verhoeven associou sua direção ao roteiro primoroso de David Birke para tornar fluidas as decisões da Michèlle interpretada por Isabelle Huppert. Com um elenco de estrelas europeias como a própria Huppert e o galã francês Laurent Lafitte, o cineasta construiu uma trama bem alinhada, onde tudo se conecta.

Dona de si e de suas decisões, a durona protagonista de Elle causa inquietações desde que é apresentada ao público até a grande virada e o desfecho de sua trama. Intrigante, o filme traz a mulher destruída que surpreendentemente, apesar de seus desejos ocultos e imoralidades, caminha para um grande ato de empoderamento numa metáfora aos jogadores de videogames, onde o momento de êxtase e satisfação é aquele em que se dá a volta por cima, derrota o inimigo e por fim, consagra-se vitorioso.

*Visto no IX Janela Internacional de Cinema do Recife em novembro/2016.

Por: Paulo Cavalcante

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