Crítica: Como Nossos Pais

Um olhar sensível das relações familiares e seus conflitos, Como Nossos Pais faz o espectador se identificar com Rosa, personagem de Maria Ribeiro, e seus dilemas.

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Paulo Cavalcante
Paulo Cavalcantehttp://www.cafedeideias.com
Professor, atua na internet há mais de dez anos produzindo conteúdo sobre séries e cinema, aprecia a sétima arte e a dramaturgia para as diferentes telas.

Como Nossos Pais (Divulgação/Imovision)
Como Nossos Pais (Divulgação/Imovision)

A cineasta Laís Bodanzky vem de uma série de produções bem sucedidas no cinema nacional – “Bicho de Sete Cabeças” (2000) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) são apenas algumas das obras que compõem o seu currículo. Agora, em Como Nossos Pais, a diretora que também assina o roteiro ao lado de Luiz Bolognesi apresenta o seu trabalho mais maduro, singular e sensível. 

O longa tem início num almoço de família, sempre marcado pelas crianças agitadas, as fofocas, mãe enaltecendo um filho mais que o outro e discussões de casal. O momento mais propício para Clarice (Clarisse Abujamra) perder a cabeça e revelar na frente de todos que sua filha Rosa (Maria Ribeiro) é fruto de uma relação extra conjugal. A partir daí a vida de Rosa vira de cabeça para baixo – não só por descobrir que seu pai é outro cara, mas pelo fato de que essa descoberta aciona um botão vermelho que a faz enxergar sua vida de outra maneira, percebendo que não é feliz como imaginava e tendo que repensar sua vida dali à frente.

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A direção de Laís Bodanzky exprime um registro do que é Rosa diante de uma vida cheia de responsabilidades – ela é mulher, mãe, filha, irmã, esposa, trabalhadora -, sufocada por ter de agarrar o mundo sem ter tempo para buscar seu bem estar, sua felicidade e a realização de seus sonhos. Em um momento a vemos de uma perspectiva de análise, de um ponto onde é possível identificar seu perfil e adquirir empatia pela protagonista, ao passo que a personagem de Maria Ribeiro caminha para um momento de questionamentos e nos vemos ali preocupados com o rumo que ela tomará. Embora a protagonista seja feminina, o filme consegue criar essa aproximação do público, independente de gênero, com a personagem e sua trama.

A trilha que acompanha a narrativa, que começa com crianças empolgadas cantando “Show das Poderosas” da Anitta e evolui para barulhos e sons incômodos dão o tom de desgaste da trajetória de Rosa que ao mesmo tempo que se reencontra é acompanhada de uma trilha mais suave com direito até a MPB.

Maria Ribeiro desempenha um dos melhores trabalhos de sua carreira, ao lado de Clarisse Abujamra, já consagrada atriz que despeja aqui sua excelente interpretação. Paulo Vilhena como Dado, marido de Rosa, também surpreende muito mais pelo seu crescimento como ator do que por sua atuação propriamente dita – mesmo que já tenha feito um papel mais maduro em “O Amor no Divã” (2016) é inevitável lembrar que ele começou ainda jovem no seriado “Sandy & Júnior” (1999) e caminhou até grandes papéis como este em Como Nossos Pais.

O longa vai além do que os filhos carregam da criação e do convívio com os patriarcas para suas próprias vidas; ele traz uma mulher que tem medo de fraquejar e se culpa por ter controle de tudo, medo e culpa fruto da cultura machista em que o sexo feminino está mergulhado na sociedade. Já seria ótimo se Como Nossos Pais focasse apenas na pressão sobre das responsabilidades e da desigualdade de gênero sobre a mulher; mas acompanhamos uma trama que abrange mais do que isso, rompe barreiras e discute com naturalidade temas que incomodam como a bigamia, a liberdade e a descoberta da sexualidade e o já citado machismo, trazendo à tona uma geração adulta que ainda vive dos resquícios culturais e sociais do tempo dos pais descobrindo um novo mundo, cheio de oportunidades e escolhas.

Por: Paulo Cavalcante

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