O Formidável (Divulgação/Imovision)
O Formidável (Divulgação/Imovision)

Embora não seja uma cinebiografia de Jean-Luc Godard, O Formidável é um retrato da relação entre o cineasta e sua jovem esposa e um recorte da interação entre o franco-suíço e os espectadores de suas obras. Considerado o gênio da nouvelle vague, o diretor de “Acossado” (1960) e “O Desprezo” (1964) tem exposta uma outra face – o seu egocentrismo, inseguranças e seus viés políticos que se escondiam por trás de toda sua jovialidade.

Michel Hazanavicius, que vem do Oscarizado “O Artista” (2011), inicia o longa discorrendo das relações interpessoais de Godard (Louis Garrel), principalmente com sua esposa Anne (Stacy Martin). O casamento com a jovem moça inicia durante as gravações de seu filme “A Chinesa”, o qual Anne é a estrela. A medida que o cineasta vai revelando seus traços de personalidade e Anne vai conhecendo-o melhor, a relação desanda e vamos percebendo a furada que a moça se meteu.

A trama acontece em meio a greve geral francesa de 1968 e acompanhamos Godard através da visão de Anne. A medida que o cineasta fica mais comprometido com a política e sua luta a favor da greve, sua esposa vai perdendo deixando de lado o amor que sentia pelo esposo famoso. Louis Garrel apresenta um Godard resistente mas completamente perdido quanto às suas convicções, notavelmente quando A Chinesa (1967) é mal recebido pelo público e ele resolve considerar um lixo todo o seu aclamado trabalho até ali para fazer a partir de então um cinema revolucionário que nem ele sabia como fazer acontecer e nos momentos em que parece não ter uma opinião formada sobre aquilo que defende ao aceitar as vaias dos jovens que discordam de sua posição.

Louis Garrel interpreta Jean-Luc Godard em ato político (Divulgação/Imovision)

Hazanavicius entrega também um Jean-Luc Godard cheio de problemas de ego. Ora ele é um tanto egocêntrico, quando faz sua relação girar em torno de si e esquecendo dos desejos e prioridades da esposa, ora surge com uma baixa estima disfarçada de crise dos 30 anos. Godard apresentava um insegurança profunda quanto ao seu trabalho, percorrendo os seus atos tentativamente revolucionários, culminando num casamento um tanto doentio, possessivo e amargado pelo ciúme excessivo.

Louis Garrel na pele de Godard apresenta uma interpretação profunda da personagem, embora Stacy Martin também roube a cena com sua Anne que sai de uma prisão para transbordar empoderamento feminino.

A metalinguagem presente no filme torna-o curioso, não obstante os exageros de recursos cinematográficos ali expostos – ainda que bem posicionados, por vezes soa excessivo. Mas há que se destacar alguns momentos interessantes como a quebra da quarta parede, provocante da primeira vez em que acontece mas desnecessária na seguinte; a música que toca e se repete em determinada faixa de tempo, resultante de um disco arranhado, bem como as distorções de imagem que acompanham a trilha, caracterizando uma virada no relacionamento entre Godard e Anne; e a crítica ao excesso de nudez desproposital no cinema ironicamente contestada pelo casal aparecendo como veio ao mundo em cena.

Mostrar este lado do cineasta de “Adeus à Linguagem” (2014) pode até incomodar seus fãs mais ferrenhos, embora Michel Hazanavicius consiga realizar um roteiro delicado que mescla seriedade a um tom extravagante e caricato ao revelar uma outra face de Godard.

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