A Menina Santa (Divulgação/Imagem Filmes)
A Menina Santa (Divulgação/Imagem Filmes)

Na tarde da última terça-feira (07) o público recifense teve a rara oportunidade de assistir como parte da programação do X Janela de Cinema o argentino A Menina Santa (“La Niña Santa”), clássico de 2004 dirigido por Lucrecia Martel e com produção executiva de Pedro Almodóvar, no formato 35mm . O longa, apenas um dos vários exibidos durante o festival que lidam com o “coming of age”, o desejo e a sexualidade, incorpora novos elementos à equação: a vocação e a espiritualidade.

Amália, interpretada pela jovem María Alché (“Algum Lugar Belo”), passa por uma experiência que excita sua curiosidade e ao mesmo tempo a faz questionar seu papel como cristã e sua relação com Deus: a garota faz parte de um grupo de estudos católicos e conhece as orações de cor. A câmera de Lucrecia é sofisticada, abusa dos close-ups e enquadramentos íntimos, focados nas expressões dos personagens, em olhares e mudanças sutis de humor.

Tendo como palco o hotel de propriedade de sua mãe, Helena, (Mercedes Morán) e no qual foi criada, o filme explora as consequências dessa experiência (leia-se ser “bolinada” por Jano, interpretado por Carlos Belloso, um médico que está hospedado no hotel da família em razão de um seminário). Amália não se sente enojada ou apresenta os sintomas clássicos de trauma que esse tipo de situação costumam incitar. Pelo contrário. Ela sente que finalmente encontrou seu propósito na terra: salvar a alma de Jano da perdição. Com essa ideia em mente, Amália passa a perseguí-lo em todos os lugares, e não só isso, mas desenvolve uma estranha fascinação pelo médico que beira a paixonite e é expressada por fortes impulsos sexuais que ela tanto explora sozinha quanto os compartilha com a melhor amiga, que por sua vez também lida com debates do corpo e do espírito.

Enquanto isso sua mãe, uma bela mulher divorciada, ignorante do que se passa entre ele e sua filha, também passa a nutrir desejos por Jano, sentimento que é reciprocado. Note-se aí que o médico é casado e pai de dois filhos. Trata-se de uma receita para o desastre (não do filme, e sim na trama) e o drama fácil que em outras mãos seguiria uma narrativa bastante previsível, mas não é nisso que a diretora está interessada.

Cena de "A Menina Santa", de Lucrecia Martel (Divulgação/Imagem Filmes)
Cena de “A Menina Santa”, de Lucrecia Martel (Divulgação/Imagem Filmes)

Com toques de humor negro, o longa é acima de tudo um estudo da condição humana, com personagens complexos e sem falsos moralismos, a partir de uma perspectiva predominantemente feminina. Quando a história parece perto do clímax (o segredo de Jano e Amália prestes a ser revelado) Lucrecia nos presenteia com uma sequência que é o último momento de calma antes do furacão. Para alguns, um drama sem “pay off”. Para outros, o toque engenhoso do roteiro escrito em parceria com Juan Pablo Domenech e que deixa ao espectador a tarefa de imaginar o desenrolar da história,  para variar.

O X Janela de Cinema presta homenagem à diretora com exibição de outros 3 dos seus títulos: Zama, O Pântano e A Mulher Sem Cabeça.

Por: Evie Diane, do X Janela Internacional de Cinema do Recife.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here