Crítica: Lady Bird – A Hora de Voar

Greta Gerwig faz sua estreia na direção com um coming of age que é parte autobiográfico e parte universal.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

Lady Bird - A Hora de Voar (Divulgação/Universal Pictures)
Lady Bird – A Hora de Voar (Divulgação/Universal Pictures)

Tendo nascido e sido criada em uma cidade pequena, virtualmente sem acesso a nenhum tipo de arte salvo aquela transmitida pela tv e consequentemente me sentido restringida intelectualmente, os problemas da personagem criada por Greta Gerwig são facilmente relacionáveis – e aí reside a universalidade do longa – apesar de Lady Bird – A Hora de Voar ser mais uma carta aberta de amor a Sacramento, Califórnia que qualquer outra coisa.

Lady Bird quer se mudar, quer liberdade, quer ser ouvida, mas se sente incompreendida, tratada como criança, e obviamente acha que a vida é injusta porque ela não é bonita/rica/popular o suficiente. O colégio católico no qual estuda e todas as suas regras são antiquados e repressores, e a personagem sente-se na obrigação de desafiá-los. “O que você faz é muito corajoso, muito anarquista” elogia Kyle, interpretado por Timothée Chalamet (“Me Chame Pelo Seu Nome”). Kyle é cool e misterioso, nunca é visto sem um livro nas mãos e um cigarro nos lábios, toca baixo em uma banda de rock e não acredita em dinheiro, apesar de ser rico. Desnecessário dizer que Lady Bird está apaixonada. Isso após o relacionamento anterior com Danny, Lucas Hedges, acabar tragicamente (salvas as hipérboles inerentes da idade).

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O filme possui vários méritos, entre eles o de Greta conseguir capturar muito bem o sentimento de ser adolescente nos anos 90 – as roupas, a playlist – tudo evoca a nostalgia da última era ainda não corrompida pela tecnologia e as redes sociais. O próprio comportamento dos personagens remete a uma inocência que os jovens de hoje não mais compartilham. A saudade do ensino médio e de todas as suas dores e delícias é inevitável. Inevitável também é a comparação de Lady Bird com uma Frances Ha adolescente, tão perdida quanto, cheia de sonhos e aspirações mas sem muito talento para alcançá-los.

A personagem não exige muito de Saoirse Ronan, o talento da atriz está a anos luz de qualquer coisa que o filme possa requerer, salvo uma ou outra cena com um pouco mais de carga emocional. De qualquer forma Gerwig tira proveito de todo o carisma que Ronan oferece a sua protagonista. Laurie Metcalf está brilhante no papel de uma mãe exausta, tão preocupada com o trabalho, as tarefas domésticas, problemas financeiros e psicológicos do marido, o também brilhante, embora muito mais sutil Tracy Letts, que esquece de talvez tratar a filha com mais carinho. Lady Bird, por sua vez, possui o egoísmo típico da idade, onde quase tudo fora do seu próprio universo não merece muita atenção. Greta foca boa parte do filme no relacionamento entre mãe e filha: “vocês tem personalidades muito
fortes”, diz o pai, tentando explicar o motivo pelo qual as brigas, acusações e insultos são constantes entre as duas.

O terceiro ato, no qual se dá uma espécie de redenção ou trégua entre as personagens, é previsível, assim como todo o filme, que se preocupa mais em ser uma polaroid perfeita de uma época do que algo mais profundo, mas que mesmo assim possui uma doçura que é
cativante.

Lady Bird estreia nos cinemas brasileiros em fevereiro de 2018.

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