Lady Bird - A Hora de Voar (Divulgação/Universal Pictures)
Lady Bird – A Hora de Voar (Divulgação/Universal Pictures)

Tendo nascido e sido criada em uma cidade pequena, virtualmente sem acesso a nenhum tipo de arte salvo aquela transmitida pela tv e consequentemente me sentido restringida intelectualmente, os problemas da personagem criada por Greta Gerwig são facilmente relacionáveis – e aí reside a universalidade do longa – apesar de Lady Bird – A Hora de Voar ser mais uma carta aberta de amor a Sacramento, Califórnia que qualquer outra coisa.

Lady Bird quer se mudar, quer liberdade, quer ser ouvida, mas se sente incompreendida, tratada como criança, e obviamente acha que a vida é injusta porque ela não é bonita/rica/popular o suficiente. O colégio católico no qual estuda e todas as suas regras são antiquados e repressores, e a personagem sente-se na obrigação de desafiá-los. “O que você faz é muito corajoso, muito anarquista” elogia Kyle, interpretado por Timothée Chalamet (“Me Chame Pelo Seu Nome”). Kyle é cool e misterioso, nunca é visto sem um livro nas mãos e um cigarro nos lábios, toca baixo em uma banda de rock e não acredita em dinheiro, apesar de ser rico. Desnecessário dizer que Lady Bird está apaixonada. Isso após o relacionamento anterior com Danny, Lucas Hedges, acabar tragicamente (salvas as hipérboles inerentes da idade).

O filme possui vários méritos, entre eles o de Greta conseguir capturar muito bem o sentimento de ser adolescente nos anos 90 – as roupas, a playlist – tudo evoca a nostalgia da última era ainda não corrompida pela tecnologia e as redes sociais. O próprio comportamento dos personagens remete a uma inocência que os jovens de hoje não mais compartilham. A saudade do ensino médio e de todas as suas dores e delícias é inevitável. Inevitável também é a comparação de Lady Bird com uma Frances Ha adolescente, tão perdida quanto, cheia de sonhos e aspirações mas sem muito talento para alcançá-los.

A personagem não exige muito de Saoirse Ronan, o talento da atriz está a anos luz de qualquer coisa que o filme possa requerer, salvo uma ou outra cena com um pouco mais de carga emocional. De qualquer forma Gerwig tira proveito de todo o carisma que Ronan oferece a sua protagonista. Laurie Metcalf está brilhante no papel de uma mãe exausta, tão preocupada com o trabalho, as tarefas domésticas, problemas financeiros e psicológicos do marido, o também brilhante, embora muito mais sutil Tracy Letts, que esquece de talvez tratar a filha com mais carinho. Lady Bird, por sua vez, possui o egoísmo típico da idade, onde quase tudo fora do seu próprio universo não merece muita atenção. Greta foca boa parte do filme no relacionamento entre mãe e filha: “vocês tem personalidades muito
fortes”, diz o pai, tentando explicar o motivo pelo qual as brigas, acusações e insultos são constantes entre as duas.

O terceiro ato, no qual se dá uma espécie de redenção ou trégua entre as personagens, é previsível, assim como todo o filme, que se preocupa mais em ser uma polaroid perfeita de uma época do que algo mais profundo, mas que mesmo assim possui uma doçura que é
cativante.

Lady Bird estreia nos cinemas brasileiros em fevereiro de 2018.

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