Crítica: A Forma da Água

Guillermo del Toro mistura realidade e ficção num conto sobre a relação entre uma faxineira muda e uma criatura meio humana, meio anfíbio.

A Forma da Água (Divulgação/Fox Film)

Vencedor do Leão de Ouro, principal prêmio do Festival de Veneza, A Forma da Água (“The Shape of Water”) é mais um conto que sobrepõe a tela do cinema com a marca de Guillermo del Toro (“O Labirinto do Fauno”) e seu capricho estético. É em tons de azul esverdeado que o cineasta, com a fotografia de Dan Laustsen, conta a história da princesa sem voz e seu príncipe.

O filme se passa durante a Guerra Fria, nos anos 60, e traz a faxineira Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha numa base secreta do governo americano. Uma criatura híbrida de humano e anfíbio é capturada na América do Sul e levada para esta base, ficando isolada no laboratório comandado pelo Dr. Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) e segurado pelo agressivo agente Strickland (Michael Shannon). Curiosa, Elisa se aproxima do que o governo considera “um monstro” e cria uma conexão com a criatura, e contará com a ajuda da sua amiga Zelda (Octavia Spencer) e seu vizinho artista Giles (Richard Jenkis) para salvá-lo após descobrir os planos que envolvem o sacrifício do seu novo e estranho amigo.

Como o próprio narrador define, este é um conto sobre uma princesa. Mas não daquelas que a gente vê na Disney. Quer dizer, talvez até tenha um pouco delas (impossível não lembrar de “A Bela e a Fera”), mas insira aqui elementos da realidade com a abordagem de discussões em alta como protagonismo e representatividade feminina, bem como preconceito e aceitação, e adicione uma dose de ficção com direito a uma homenagem a “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e produtos de gênero cinematográficos. Obtenha um produto quase perfeito das mãos do diretor mexicano, que fica devendo apenas num melhor desenvolvimento da relação (por vias de tela, apressada) entre a princesa sem voz e o príncipe anfíbio.

Com um elenco estelar, há de se comentar uma a uma as atuações. Michael Stuhlbarg presta mais uma vez a sua excelência artística e surgindo na tela irreconhecível como o Dr. Hoffstetler; Michael Shannon é mais um policial no cinema, mas faz jus ao seu premiado histórico com um personagem pesado e cheio de camadas problemáticas; Jenkis e Octavia Spencer percorrem o drama e a comédia com bastante fluidez, sendo esta última em um de suas melhores atuações coadjuvantes; por fim, e mais importante, Sally Hawkins traduz com maestria dezenas e mais dezenas de páginas de roteiro em gestos e expressões enquanto Doug Jones segue os mesmos passos – mas com o auxílio de maquiagem, efeitos gráficos e sonoplastia – em sua interpretação do homem anfíbio.

Sally Hawkins e Octavia Spencer em cena de A Forma da Água (Divulgação/Fox Film)
Sally Hawkins e Octavia Spencer em cena de A Forma da Água (Divulgação/Fox Film)

A cinematografia de Dan Lausten é traduzida numa paleta de cores prioritariamente em tons de azul esverdeado, criando uma atmosfera ora claustrofóbica, ora libertária. Nesse cenário, del Toro desenvolve sua trama que tem como ponto principal a descoberta do melhor que há nos renegados. A exemplo de Elisa, apaixonada por música e programas musicais, que se insere nesse universo numa cena clichê a la “A Bela e a Fera” ao descobrir (para si mesma) que aquela condição que os outros vêem como uma imperfeição é na verdade uma particularidade que nada impede em sua liberdade para ir de encontro a felicidade.

Por falar em música, A Forma da Água conta com uma trilha original bastante envolvente e imersiva contemplada por Alexandre Desplat e bem acompanhada de grandes clássicos musicais – com direito a “Chica Chica Boom Chic”, da Carmen Miranda.

Numa das primeiras cenas, o senhorio de Elisa que também comanda um cinema de rua a chama para uma sessão de um novo filme bíblico, dando ingressos de graça para a moça e afirmando que “ninguém mais vai ao cinema”. É após esta cutucada que o filme toma seu rumo e se realiza numa construção narrativa do del Toro e da Vanessa Taylor que mixa ficção e realidade e faz de A Forma da Água o fruto de um cineasta apaixonado pelo cinema.

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