Crítica: Em Pedaços

Luto, justiça e vingança seguem a trama do filme eleito melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e vencedor em Cannes pela atuação de Diane Kruger.

Diane Kruger em cena de Em Pedaços (Divulgação/Imovision)
Diane Kruger em cena de Em Pedaços (Divulgação/Imovision)

Vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e premiado no Festival de Cannes pela atuação de Dianne Krueger, Em Pedaços (“Aus dem Nichts/In The Fade”) é um filme sobre respeito, preconceito, e intolerância. Dividido em atos, a produção do alemão Fatih Akin mostra como o luto e a injustiça culminam num clamor pessoal por vingança.

O filme acompanha Katja (Diane Kruger), que perde o filho e o marido após uma bomba deixada na porta do escritório da família explodir. A protagonista terá de lidar com o luto ao mesmo tempo que tenta ajudar a polícia a desvendar o crime. Os três atos do filme seguem a recuperação de Katja – abalada psicologicamente com a perda da família -, a busca pelos culpados e sua luta por justiça.

Kruger serve ao espectador uma atuação intimamente visceral, delicada e verdadeira, transpondo para a tela todo o sofrimento da personagem diante dos acontecimentos. Denis Moschitto, na pele do advogado Daniel, num primeiro momento soa superficial, mas tem seu ápice num importante momento de defesa das vítimas frente ao tribunal.

E não só as atuações se destacam. Fatih Akin, que tem em seu currículo trabalhos como produtor, diretor e roteirista, faz muito bem o uso de cada um desses atributos. O sofrimento de Katja acerta o tom não só pela atuação de Krueger, mas também com os closes de câmera e na fotografia inerte que se traduz na vida familiar da personagem, que está se esvaindo. No segundo ato, Akin torna a trama jurídica com os elementos bem posicionados em tela, com a defesa, acusação e suspeitos sempre nas laterais e a protagonista na maior parte do tempo ao centro. Neste momento, a agonizante trilha de Josh Homme presente no primeiro ato se silencia para retornar retumbante no ato final, criando um assertivo clima de suspense.

Enquanto Em Pedaços traz uma parte técnica caprichada, o roteiro traz uma discussão intrigante sobre a xenofobia ainda presente nos dias atuais, neste caso retratada numa realidade europeia e corroborando com o movimento que é visto diariamente nos telejornais. Entra em pauta também até onde o sistema jurídico pode ir para resolver os casos e quanto de justiça se faz ou deixa de fazer, mostrando que é ainda uma ordem de poderes e atributos limitados – não só em nosso país, mas em todo o mundo. Tudo é muito bem esmiuçado a medida que o roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm se desenvolve, levando a mais um importante ponto do longa metragem do cineasta alemão: a forma como ele nos conduz pela trama, criando empatia pela personagem e sua decisão final, como fez Martin McDonagh na jornada da Mildred em “Três Anúncios Para Um Crime” ou Ken Loach com o protagonista de “Eu, Daniel Blake” – só que aqui, talvez, essa empatia não signifique aprovação.

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