Crítica: Pagliacci

“Seja jardineiro da sua arte e não o arquiteto”

Cena do filme. Imagem: Paulo Barbuto / Divulgação

Um filme delicado sobre uma escolha de vida. Sobre uma forma de levar a vida de um jeito leve e ao mesmo tempo de forma trabalhosa. Mais do que rir, o palhaço escolhe fazer as outras pessoas rirem. O riso se torna seu combustível para a vida. O filme é resultado dos 20 anos da companhia LaMínima.

Domingos Montagner e Fernando Sampaio que se conheceram no Circo Escola Picadeiro, em São Paulo, se uniram em apresentações nas ruas sob orientação de Roger Avanzi e em 1997, junto com Luciana Lima, deram início ao Grupo LaMínima.

Domingos Montagner e Fernando Sampaio (Foto: Divulgação Grupo LaMínima)

Por meio da construção do espetáculo Pagliacci, que dá o título ao documentário, seus personagens e intérpretes se revezam no discurso sobre a trajetória do grupo e o que é para eles ser palhaço. Em meio a esse cenário surgem depoimentos de personagens importantes que inspiraram os artistas da companhia como, por exemplo, Avanzi que ao longo da sua carreira deu vida ao palhaço Picolino.

Montagner que faleceu por afogamento no Rio São Francisco em setembro de 2016, nos intervalos da gravação da novela Velho Chico é relembrado em diversos momentos pelos seus amigos e em especial por Sampaio, seu companheiro de espetáculo. Imagens de arquivos ilustram as falas sobre sua trajetória, presença e força no palco. Sampaio em alguns momentos utiliza uma camisa em homenagem ao amigo com a estampa de uma frase usada por ele frequentemente “O espetáculo não para, tem sequência”.

A fotografia de Pedro Moscalcoff é um dos pontos altos do documentário. De uma leveza incrível, as cenas mais parecem projeções de um lindo sonho com um textura que temos a sensação que vai saltar da tela a qualquer momento. A beleza das imagens dialogam diretamente com os depoimentos dos personagens, que recorrentemente falam do sonho que é poder ser palhaço e ser aplaudido pelo público em meio às risadas.

Nas mãos dos diretores Chico Gomes, Júlio Hey, Pedro Moscalcoff, Luiz Villaça e Luiza Villaça, Pagliacci conseguiu apresentar a delicadeza sublime da paixão dos palhaços pelo palco, a felicidade deles em arrancar sorrisos e construir um sonho de criança para as crianças que habitam nosso íntimo. O palhaço pode ser aquilo que quiser no palco e se reinventar ao longos dos anos. Seu público diminui, mas sua perseverança continua. “Seja jardineiro da sua arte e não o arquiteto”, dizia Montagner.

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