Crítica: Praça Paris

Longa de Lucia Murat é um recorte sobre a tensão social entre as classes.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

Praça Paris (Divulgação/Imovision)
Praça Paris (Divulgação/Imovision)

Em Praça Paris (BRA, 2017), Glória (Grace Passô) é ascensorista no prédio de Psicologia da UERJ e moradora do Morro da Providência. Um dia, decide procurar o serviço gratuito de acompanhamento psicológico oferecido pela universidade, onde conhece Camila (Joana de Verona), uma jovem psicanalista e pesquisadora portuguesa. “Porque você sentiu necessidade de procurar essas consultas?”, questiona Camila. “Ah, tanta coisa…” responde Glória, que passa a descrever uma série de abusos e várias formas de violência que presenciou e das quais foi vítima, fora e dentro da própria casa, a maior parte delas cometidas pelo pai. Camila ouve a tudo atentamente, e o que no começo parecia ser apenas mais um caso a ser estudado, sessão após sessão rapidamente se transforma em algo que ameaça se infiltrar em sua vida pessoal.

Com direção de Lucia MuratPraça Paris é uma co-produção brasileira, portuguesa e argentina, que usa o encontro de duas mulheres de origens completamente diferentes para explorar temas que vão desde a empatia aos abismos sociais, a violência sistêmica tanto doméstica quanto urbana e suas consequências. Vencedor dos prêmios de Melhor Atriz para Grace Passô e Melhor Direção para Murat no Festival do Rio 2017 o longa é recheado de tensão, especialmente no último ato, transformando-se num thriller que usa a paranoia como combustível para desestabilizar os personagens e justificar ações inconsequentes. Grace é sem dúvida a estrela da produção, incutindo Glória da dose certa de ferocidade e vulnerabilidade, ofuscando sua companheira portuguesa em cena que, em contraste, não oferece a mesma profundidade.

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O elemento principal de atrito entre as personagens fica por conta do irmão de Glória, preso por associação ao tráfico mas que continua a comandar ações de dentro da cadeia, o qual ela visita regularmente. Uma vez que Camila descobre não só o parentesco, mas que o dito irmão criminoso sabe e não necessariamente aprova do seu relacionamento com a irmã, é impossível para ela não estender suas suposições à paciente, e o que começa como uma preocupação, se transforma em pânico. Uma terceira personagem tem papel de destaque na trama, a avó de Camila. Atriz portuguesa famosa que é mantida sem nome, faz aparições recorrentes em forma de fotografia e tem uma história triste e misteriosa que é mantida em segredo. “Minha família sempre disse que o culpado da morte da minha avó tinha sido o Brasil. E eu nunca acreditei”, comenta a psicanalista, uma vez que vários dos seus receios e preconceitos parecem se confirmar.

Seria fácil justificar o medo de Camila e a decisão de cortar relações com sua paciente a partir do momento que essa começa a fazer insinuações que podem ser entendidas como ameaças veladas, porém a forma como a narrativa foi desenvolvida até aquele momento nos leva a interpretar as atitudes de Glória de formas diferentes. Seria ela, no final das contas, uma vilã? Ou seu comportamento é simplesmente resultado do ambiente de violência no qual foi criada, baseado em códigos sociais repudiados pelas classes mais altas? A decisão de Murat, que além de dirigir co-escreveu o roteiro ao lado de Raphael Montes, parece ser uma de ambiguidade, o que certamente torna o filme mais interessante e a personagem de Glória mais rica e tridimensional.

Uma crítica que se pode fazer à Praça Paris é de que o filme corrobora com estereótipos atribuídos ao pobre, negro, morador de comunidade, tomando o ponto de vista não só da classe média como também dos estrangeiros – nesse caso europeus – sobre essa parcela da sociedade, como dominante. Ao mesmo tempo que seja inegável que o filme em alguns aspectos sofra dessa inclinação, por outro lado, ao nos oferecer uma visão direta do universo de Glória, seu passado e presente, suas opiniões e escolhas, temos a possibilidade de compreendê-la como ser humano para além dos clichês relacionados à cor e/ou condição econômica, mesmo que a personagem de Camila – intencionalmente – não seja capaz de fazer o mesmo.

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