Praça Paris (Divulgação/Imovision)
Praça Paris (Divulgação/Imovision)

Em Praça Paris (BRA, 2017), Glória (Grace Passô) é ascensorista no prédio de Psicologia da UERJ e moradora do Morro da Providência. Um dia, decide procurar o serviço gratuito de acompanhamento psicológico oferecido pela universidade, onde conhece Camila (Joana de Verona), uma jovem psicanalista e pesquisadora portuguesa. “Porque você sentiu necessidade de procurar essas consultas?”, questiona Camila. “Ah, tanta coisa…” responde Glória, que passa a descrever uma série de abusos e várias formas de violência que presenciou e das quais foi vítima, fora e dentro da própria casa, a maior parte delas cometidas pelo pai. Camila ouve a tudo atentamente, e o que no começo parecia ser apenas mais um caso a ser estudado, sessão após sessão rapidamente se transforma em algo que ameaça se infiltrar em sua vida pessoal.

Com direção de Lucia MuratPraça Paris é uma co-produção brasileira, portuguesa e argentina, que usa o encontro de duas mulheres de origens completamente diferentes para explorar temas que vão desde a empatia aos abismos sociais, a violência sistêmica tanto doméstica quanto urbana e suas consequências. Vencedor dos prêmios de Melhor Atriz para Grace Passô e Melhor Direção para Murat no Festival do Rio 2017 o longa é recheado de tensão, especialmente no último ato, transformando-se num thriller que usa a paranoia como combustível para desestabilizar os personagens e justificar ações inconsequentes. Grace é sem dúvida a estrela da produção, incutindo Glória da dose certa de ferocidade e vulnerabilidade, ofuscando sua companheira portuguesa em cena que, em contraste, não oferece a mesma profundidade.

O elemento principal de atrito entre as personagens fica por conta do irmão de Glória, preso por associação ao tráfico mas que continua a comandar ações de dentro da cadeia, o qual ela visita regularmente. Uma vez que Camila descobre não só o parentesco, mas que o dito irmão criminoso sabe e não necessariamente aprova do seu relacionamento com a irmã, é impossível para ela não estender suas suposições à paciente, e o que começa como uma preocupação, se transforma em pânico. Uma terceira personagem tem papel de destaque na trama, a avó de Camila. Atriz portuguesa famosa que é mantida sem nome, faz aparições recorrentes em forma de fotografia e tem uma história triste e misteriosa que é mantida em segredo. “Minha família sempre disse que o culpado da morte da minha avó tinha sido o Brasil. E eu nunca acreditei”, comenta a psicanalista, uma vez que vários dos seus receios e preconceitos parecem se confirmar.

Seria fácil justificar o medo de Camila e a decisão de cortar relações com sua paciente a partir do momento que essa começa a fazer insinuações que podem ser entendidas como ameaças veladas, porém a forma como a narrativa foi desenvolvida até aquele momento nos leva a interpretar as atitudes de Glória de formas diferentes. Seria ela, no final das contas, uma vilã? Ou seu comportamento é simplesmente resultado do ambiente de violência no qual foi criada, baseado em códigos sociais repudiados pelas classes mais altas? A decisão de Murat, que além de dirigir co-escreveu o roteiro ao lado de Raphael Montes, parece ser uma de ambiguidade, o que certamente torna o filme mais interessante e a personagem de Glória mais rica e tridimensional.

Uma crítica que se pode fazer à Praça Paris é de que o filme corrobora com estereótipos atribuídos ao pobre, negro, morador de comunidade, tomando o ponto de vista não só da classe média como também dos estrangeiros – nesse caso europeus – sobre essa parcela da sociedade, como dominante. Ao mesmo tempo que seja inegável que o filme em alguns aspectos sofra dessa inclinação, por outro lado, ao nos oferecer uma visão direta do universo de Glória, seu passado e presente, suas opiniões e escolhas, temos a possibilidade de compreendê-la como ser humano para além dos clichês relacionados à cor e/ou condição econômica, mesmo que a personagem de Camila – intencionalmente – não seja capaz de fazer o mesmo.

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