Crítica: Quase Memória

Baseado no best-seller de Carlos Heitor Cony, longa dirigido por Ruy Guerra faz uma reflexão profunda sobre o tempo e a memória.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

Quase Memória (Divulgação/Pandora Filmes)
Quase Memória (Divulgação/Pandora Filmes)

Carlos, jornalista, se vê de repente frente a frente com a manifestação física do seu eu do passado, e embarca em uma viagem por suas memórias sobre o pai, discutindo o conceito de tempo e ruminando remorsos. Assim como na obra literária homônima, Quase Memória questiona talvez um dos mais pertinentes e por vezes angustiantes temas da existência humana: a memória. Até que ponto é possível confiar nela? O que fazer quando nossa própria mente parece nos enganar? O diretor Ruy Guerra, um dos principais expoentes do cinema nacional, levou mais de dez anos para concretizar o projeto, e nos faz essas perguntas e muitas outras, usando um elenco de peso e um roteiro tão denso quanto poético, adaptado do vencedor do prêmio Jabuti de 1995.

Carlos em sua versão jovem é interpretado por Charles Fricks (“Nise – O Coração da Loucura”) com bastante precisão e uma carga emocional que complementa aquela entregue por Tony Ramos, que obviamente dispensa apresentações, e que demonstra mais uma vez porque é considerado um dos melhores atores brasileiros vivos, com sua interpretação de um Carlos já idoso, frágil, doente e cheio de arrependimentos. As duas versões discutem e relembram entre si histórias sobre o pai, Ernesto (João Miguel), que são contadas durante o filme de forma lúdica e povoados por diferentes personagens, entre eles Maria (Mariana Ximenes) primeira mulher de Ernesto e mãe de Carlos.

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Quase Memória tem um tom de peça teatral, tanto no que diz respeito aos cenários – todas as interações entre as duas versões de Carlos acontecem no mesmo apartamento – quanto às próprias falas e os poucos cortes de câmera. A fotografia é alternada entre tons mais sóbrios, quando estamos no apartamento com Carlos, e vivos e coloridos quando suas memórias do pai ganham vida. Notícias no rádio e na tv, política e marcos da história do Brasil são costurados por entre a narrativa, dando uma noção de temporalidade e até mesmo de realidade ao que por vezes soa e aparenta ser fantasia.

O filme tem momentos de “quebra da quarta parede” – personagens falando não só diretamente para a câmera como especificamente ao telespectador – quando somos questionados sobre o papel do autor nas obras de ficção. O autor é onisciente, afirma uma das versões de Carlos, mas seus personagens só sabem aquilo que ele deseja lhes contar. Para além das metáforas e questões existenciais mais complexas, o longa também tem momentos puramente emocionais, monólogos difíceis que provavelmente não funcionariam com um elenco menos talentoso. Com Quase Memória Guerra consegue fazer uso de simbolismos de forma eficiente, explorando até que ponto as lembranças se tornam parte essencial das nossas vidas, e quando, talvez, seja melhor esquecê-las.

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