Ciganos da Ciambra (Reprodução/RT Features)
Ciganos da Ciambra (Reprodução/RT Features)

Foi durante as filmagens de seu primeiro longa, Mediterrânea, quando um dos carros da sua equipe foi furtado, que o diretor Jonas Carpignano conheceu pela primeira vez os ciganos moradores de Gioia Tauro, na região da Ciambra, no sul da Itália. Filho de pai italiano e mãe americana, criado entre Roma e o bairro nova-iorquino do Bronx, Jonas enxergou a oportunidade de explorar o dia-a-dia da comunidade e seus personagens da vida real (os atores não são profissionais e a grande maioria mantêm seus nomes verdadeiros) em um longa que é mistura de realismo documental com uma dose de fantasia.

Produzido pela RT Features (“A Bruxa”, “Me Chame Pelo Seu Nome”) e por Martin Scorsese, tendo estreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes e escolhido para representar a Itália como Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, ambos em 2017, Ciganos da Ciambra tem em Pio (Pio Amato) seu personagem principal. O garoto de 14 anos divide a casa simples com uma extensa família de irmãos, primos, tias, pai e avós, os quais sobrevivem dos pequenos roubos realizados principalmente pelo irmão mais velho de Pio, Cosimo (Damiano Amato). Quando o último é preso, Pio sente que agora tem a responsabilidade de sustentar a família, e segue os passos do irmão no mundo do crime.

A câmera segue o garoto todo o tempo, e é através dele que conhecemos as dinâmicas existentes entre os diversos grupos que povoam a comunidade, sejam ciganos, imigrantes africanos ou a máfia italiana. Pio navega com facilidade entre todos, negociando itens que vão desde malas roubadas de um trem – no qual o garoto tem medo de viajar – até automóveis, que são por vezes levados até a garagem da família e desmanchados, ou devolvidos aos donos mediante pagamento de “resgate”. O longa também explora questões pertinentes à adolescência, em momentos de coming-of-age não glamorizados, como o consumo de bebida e cigarros, considerado normal entre crianças que aparentam 5/6 anos de idade, assim como as dúvidas de Pio, que tenta constantemente provar para si mesmo e para a família/amigos que já é um homem, enquanto o prospecto de dançar com uma garota o enche de pavor.

O avô, última ligação concreta que o garoto tem com o estilo de vida dos seus antepassados, pede a Pio que nunca se esqueça das suas origens: “lembre-se que nós éramos viajantes, éramos livres”. São justamente visões do avô, mais jovem e sempre ao lado de um belo cavalo, que povoam os sonhos de Pio, esteja ele dormindo ou acordado, e que representam um outro mundo, uma outra realidade. Assim, Ciganos da Ciambra equilibra o realismo da pobreza e da vida do crime com instantes de lirismo, oferecendo um retrato dos que vivem à margem, talvez sem a grandeza e a liberdade que experimentaram um dia, mas que mantêm o orgulho e o senso de família acima de tudo.

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