Paraíso Perdido (Divulgação/Vitrine Filmes)
Paraíso Perdido (Divulgação/Vitrine Filmes)

É no Baixo Augusta, famoso reduto boêmio no centro da cidade de São Paulo, que encontramos a Paraíso Perdido, ponto de encontro dos amantes da música brega. A boate tem como atração apresentações cover das canções de grandes nomes como Márcio Greyck, Odair José, Gilliard, Reginaldo Rossi e Valdick Soriano, entre outros, com direito a decoração e figurinos exuberantes. A casa é um negócio de família, gerenciado pelo patriarca José (Erasmo Carlos) com a ajuda do filho Angelo (Júlio Andrade), do sobrinho-neto Imã (Jaloo – Jaime Mello) e outros tantos agregados. Todos tem seu momento de glória no palco, mas Imã é claramente a estrela, entregando performances poderosas e emocionantes.

Transgênero, o jovem se apresenta como drag queen e tem um “relacionamento” conturbado com Pedro (Humberto Carrão), um professor de inglês que claramente vive no armário e embora sinta-se atraído por Imã, indo a boate quase todas as noites vê-lo cantar, não tem coragem de assumir seus sentimentos. Após uma dessas apresentações, Imã é agredido em frente à boate por um grupo de homofóbicos, e é salvo por Odair (Lee Taylor) um policial militar à paisana que passava pelo local. O PM é então contratado por José para fazer um bico como segurança particular do artista, o que coloca em movimento uma série de acontecimentos e com eles, vários segredos do passado vem à tona.

Com direção de Monique Gardenberg, sua primeira produção no cinema 10 anos depois do lançamento de Ó Paí Ó e produção musical de Zeca BaleiroParaíso Perdido é um melodrama romântico, tendo na tragédia grega uma de suas inspirações, cheio de personagens fortes que vivem intensamente e sem pudores. Com três núcleos distintos e histórias que se sobrepõem constantemente, o filme explora temas como o amor, a traição, a vingança e a reconciliação, assim como vários outros temas da condição humana, tudo isso embalado por números musicais que se confundem com a vida real, refletindo os sentimentos dos seus protagonistas. Mas nem todos nessa trama vivem com o coração na mão: os momentos mais delicados ficam por conta do relacionamento de Odair e sua mãe Nádia (Malu Galli), que após sofrer uma agressão no passado que a deixou surda, desenvolveu Síndrome do Pânico e há anos não sai de casa. Mãe e filho se comunicam por Libras e compartilham momentos agradáveis nos quais Odair conta histórias das suas noites na boate. Há ainda a presença de veteranas como Hermila Guedes e Marjorie Estiano, que entregam sólidas performances, assim como Seu Jorge no papel de Teylor, figurinha já carimbada das produções nacionais.

O maior triunfo de Paraíso Perdido fica por conta do carisma de determinados personagens e das emoções que esses conseguem evocar, assim como a trilha que é pura nostalgia. Com um roteiro complexo (e montagem por vezes turbulenta) o longa tenta dar conta do desenvolvimento de vários enredos diferentes, navegando entre o presente e o passado, embora nem todos eles sejam interessantes o suficiente para prender a atenção do espectador, o que também compromete a evolução daqueles que poderiam render bem mais, dando a impressão de que o longa se beneficiaria de uma história mais concisa e elenco mais enxuto. A sequência final (muito bem dirigida) merece destaque: ambígua, nos deixa questionando sobre o futuro da família e as consequências de encarar de frente segredos de décadas passadas. Dá vontade de sentar e esperar o próximo capítulo.

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