As Herdeiras | Crítica

A redescoberta da mulher e a busca pela liberdade são temas recorrentes no premiado filme paraguaio do cineasta Marcelo Martinessi.

As Herdeiras (Divulgação/Imovision)
As Herdeiras (Divulgação/Imovision)

Há anos morando juntas, a relação entre Chela e Chiquita é tão natural que não chama a atenção de ninguém. Sempre unidas e uma cuidando da outra, elas vêem as coisas mudarem quando Chiquita precisa ficar longe por alguns meses e Chela terá de seguir em frente sozinha. É a partir daqui que segue a trama de As Herdeiras (“Las Herederas”), filme paraguaio vencedor de três prêmios no Festival de Berlim, entre eles Melhor Filme de Júri da Crítica Internacional e melhor atriz (Ana Brun).

O título “As Herdeiras” não surge em vão. Enquanto Chela (Ana Brun) se mostra reclusa, submissa e depressiva, Chiquita (Margarita Irún) é mais vívida. Mas é a segunda que está enfiada em dívidas, e elas acabam precisando viver da venda de bens herdados de suas famílias do Paraguai.

O longa toma novos rumos quando Chiquita é presa por suas dívidas e terá de deixar Chela nas mãos de uma cuidadora. A personagem de Margarita Irún, sempre sociável, acaba conquistando seu espaço entre as outras presas na cadeia e se habitua com o lugar, fazendo de lá sua morada provisória. Já Chela sofre com a distância, até ser pega de surpresa com um pedido de sua vizinha – levá-la, com certa frequência, aos jogos de pôquer entre as suas amigas.

É a partir daí que a personagem de Ana Brun se desenvolve. Com naturalidade, vemos uma transformação de Chela, que deixa o ar doentio de lado e aos poucos vai ganhando vida, parecendo até mais jovem. Essa mudança se dá a Angy (Ana Ivanova), uma moça que ela conhece durante o trabalho de “taxista” das senhorinhas ricas. Mesmo sem carteira de motorista, Chela se arrisca pelas ruas, seja para transportas a vizinha fofoqueira e suas amigas viciadas em jogo, seja para conhecer um novo mundo e sentir-se querida com a aproximação de Angy.

A premiada Ana Brun em As Herdeiras (Divulgação/Imovision)
A premiada Ana Brun em As Herdeiras (Divulgação/Imovision)

A forma como Marcelo Martinessi – que fez as vezes de diretor e roteirista – conduz os passos de Chela para sua evolução é autêntica, revelando uma nova faceta da mulher que se auto-descobre e sai da sua reclusão, da sua bolha, para conquistar seu espaço. As Herdeiras vai além da discussão de gênero, de idade e de orientação sexual, e ultrapassa a barreira do conservadorismo velado na sociedade.

O trio de atrizes escolhidas como protagonistas tornam o roteiro tão verdadeiro quanto suas intenções. Ana Brun desenvolve a Chela com espontaneidade, sendo capaz de tornar uma senhora mórbida em uma jovem mulher cheia de intenções verdadeiras; Margarita Irún não fica pra trás com a simpatia de sua “Chiqui” enquanto Ana Ivanova é a cereja do bolo, que conquista com sua personalidade marcante e que embora não esteja preparada para ensinar nada sobre a vida, tem muito o que falar sobre suas experiências pessoais.

As Herdeiras é um filme sobre sair do comum e fugir das regras que nos são impostas. É sobre pessoas que deixam a inércia de lado e vão atrás de descobrir uma nova realidade, de se redescobrir e encontra a própria liberdade.

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