A Moça do Calendário | Crítica

Em seu novo longa, Helena Ignez reforça a “descolonização do pensamento”.

A Moça do Calendário (Divulgação/Pandora Filmes)
A Moça do Calendário (Divulgação/Pandora Filmes)

Apesar do título, o personagem principal de A Moça do Calendário é o ex-gari agora mecânico Inácio (André Guerreiro Lopes), que sofre de uma dor de cabeça constante. Carrega uma das obras de Freud para onde quer que vá, e acredita sofrer de alguma doença ou distúrbio psicológico. Seu verdadeiro incômodo, porém, vem da completa insatisfação com a situação atual do país – seja do ponto de vista social, político ou econômico. Inácio sente-se pressionado, usado e infeliz. Os personagens que orbitam seu dia a dia – colegas de oficina, companheiros de bar – compartilham dos mesmos problemas e entoam as mesmas queixas.

Abaixo o capitalismo, incitação à anarquia e ao radicalismo, críticas ao racismo, ao sexismo e o desmantelamento da atual ordem social e de poder. Esses são alguns dos principais temas abordados no filme dirigido por Helena Ignez a partir do roteiro escrito pelo cineasta Rogério Sganzerla em 1987. Elementos e personagens tipicamente brasileiros são usados como objetos de reflexão e contraste entre nossa riqueza cultural e as mazelas enfrentadas pelo povo, no passado e no presente.

A Moça do Calendário possui tom fortemente teatral e performático, algo que faz parte do DNA de Ignez: mistura narrativas (vai da ficção ao quase documentário), tempo e espaço, auxiliado também pela cinematografia que contrabalança cor e sequências em preto e branco – especificamente quando Inácio é humilhado ou ameaçado pelo chefe, o qual representa muitos dos ideais aos quais o mecânico se opõe e serve de modelo para ilustrar o estereótipo de patrão explorador. Outro estereótipo presente no longa, mas que nesse caso existe meramente para ser quebrado, é justamente o da moça do calendário, Lara, interpretada por Djin Sganzerla. Figurando a princípio como objeto de desejo e das fantasias eróticas de Inácio, Lara é, na realidade, ativista dos direitos dos Sem Terra e luta pela Reforma Agrária.

A própria Helena refere-se à obra como utópica, e essa é a sensação que temos ao assistir o longa: os princípios defendidos por seus personagens – de uma sociedade quase perfeita, socialista, na qual todos gozam de direitos iguais – são transmitidos de forma um tanto quanto artificial e após algum tempo, repetitiva, para não dizer indulgente. Apesar de tratar de temas atuais, sofre por falta de fluidez e excesso de obviedades. Ao fim, não aprendemos nada de novo, somos apenas expostos a um reconto de velhos conceitos e ideias. Funcionando mais como discurso informativo, A Moça do Calendário não é tão revolucionário quanto se propõe a ser.

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