A Moça do Calendário | Crítica

Em seu novo longa, Helena Ignez reforça a “descolonização do pensamento”.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

A Moça do Calendário (Divulgação/Pandora Filmes)
A Moça do Calendário (Divulgação/Pandora Filmes)

Apesar do título, o personagem principal de A Moça do Calendário é o ex-gari agora mecânico Inácio (André Guerreiro Lopes), que sofre de uma dor de cabeça constante. Carrega uma das obras de Freud para onde quer que vá, e acredita sofrer de alguma doença ou distúrbio psicológico. Seu verdadeiro incômodo, porém, vem da completa insatisfação com a situação atual do país – seja do ponto de vista social, político ou econômico. Inácio sente-se pressionado, usado e infeliz. Os personagens que orbitam seu dia a dia – colegas de oficina, companheiros de bar – compartilham dos mesmos problemas e entoam as mesmas queixas.

Abaixo o capitalismo, incitação à anarquia e ao radicalismo, críticas ao racismo, ao sexismo e o desmantelamento da atual ordem social e de poder. Esses são alguns dos principais temas abordados no filme dirigido por Helena Ignez a partir do roteiro escrito pelo cineasta Rogério Sganzerla em 1987. Elementos e personagens tipicamente brasileiros são usados como objetos de reflexão e contraste entre nossa riqueza cultural e as mazelas enfrentadas pelo povo, no passado e no presente.

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A Moça do Calendário possui tom fortemente teatral e performático, algo que faz parte do DNA de Ignez: mistura narrativas (vai da ficção ao quase documentário), tempo e espaço, auxiliado também pela cinematografia que contrabalança cor e sequências em preto e branco – especificamente quando Inácio é humilhado ou ameaçado pelo chefe, o qual representa muitos dos ideais aos quais o mecânico se opõe e serve de modelo para ilustrar o estereótipo de patrão explorador. Outro estereótipo presente no longa, mas que nesse caso existe meramente para ser quebrado, é justamente o da moça do calendário, Lara, interpretada por Djin Sganzerla. Figurando a princípio como objeto de desejo e das fantasias eróticas de Inácio, Lara é, na realidade, ativista dos direitos dos Sem Terra e luta pela Reforma Agrária.

A própria Helena refere-se à obra como utópica, e essa é a sensação que temos ao assistir o longa: os princípios defendidos por seus personagens – de uma sociedade quase perfeita, socialista, na qual todos gozam de direitos iguais – são transmitidos de forma um tanto quanto artificial e após algum tempo, repetitiva, para não dizer indulgente. Apesar de tratar de temas atuais, sofre por falta de fluidez e excesso de obviedades. Ao fim, não aprendemos nada de novo, somos apenas expostos a um reconto de velhos conceitos e ideias. Funcionando mais como discurso informativo, A Moça do Calendário não é tão revolucionário quanto se propõe a ser.

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