Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald | Crítica

Novo filme roteirizado por J.K. Rowling é uma linha fina que separa os fãs do universo de Harry Potter dos meros cinéfilos.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Divulgação/Warner Bros.)
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (Divulgação/Warner Bros.)

Não é de hoje que conhecemos J.K. Rowling por ser uma das mais visionárias escritoras, responsável pela criação de um universo fantástico como o de Harry Potter, que conquistou milhões de leitores ao redor do mundo. Como supervisora – e produtora nos dois últimos -, deu a palavra final e fez da saga cinematográfica do bruxo ser tão bem aceita quanto os livros que lhe deram origem. Mas seu trabalho como roteirista, principalmente neste Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, mostra que Rowling não está tão preparada para assumir esta função.

A saga Animais Fantásticos, que tem como base o livro homônimo escrito pelo fictício Newt Scamander, perde em “Os Crimes de Grindelwald” a identidade que tentou assumir no seu primeiro filme. Enquanto o primeiro girava em torno do personagem de Eddie Redmayne e sua relação com as criaturas extraordinárias do mundo bruxo ao mesmo tempo que aproveitava para expandir o universo de Harry Potter – ou “Wizarding World”, como vem sendo chamado – nas telonas, o segundo filme da franquia inverte os papéis, tornando Newt e os animais meros coadjuvantes a medida que a intenção de expandir o universo bruxo nos cinemas se tornou prioridade da saga.

E essa inversão é bem fácil de ser identificada já na divulgação ou mesmo na abertura do filme. O reposicionamento de identidade acontece de um filme para o outro – enquanto no primeiro “Animais Fantásticos” é destacado em letras garrafais, assumindo que este animais serão os protagonistas do filme, no segundo o mesmo trecho aparece em letras pequenas, com “Os Crimes de Grindelwald” em destaque. E ao assistir todo o filme, isso fica bem nítido – Grindelwald surge como vilão protagonista e traz consigo uma série de novos personagens e uma árvore genealógica gigantesca, amarrada a diversas histórias para contar.

Logo sofreu alteração de um filme para o outro, indicando um novo posicionamento da saga de "Animais Fantásticos" (Reprodução/Warner Bros.)
Logo sofreu alteração de um filme para o outro, indicando um novo posicionamento da saga de “Animais Fantásticos” (Reprodução/Warner Bros.)

A verdade é que em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, J.K. Rowling peca pela megalomania ao tentar entregar o máximo possível de tramas paralelas do Wizarding World sem conseguir fazê-lo com destreza. Há um exagero de pontas soltas e histórias pouco ou mal contadas que fazem refletir sobre o que é, de verdade, o filme. A sensação que fica é que J.K. Rowling escreveu um novo livro em forma de roteiro e entregou para a equipe do longa “fazer o que desse pra ser feito”.

O título do filme pouco se justifica, já que os crimes que vemos serem praticados por Grindelwald só acontecem mesmo na primeira cena do filme, em sua chegada a Paris e no ato final, com aquela promessa de “vai ter mais na continuação”. Ainda assim, Johnny Depp – por mais caricato que seja – acabou caindo como uma luva na pele de Grindelwald, com todo o seu discurso retórico e capacidade de convencimento.

A relação de Leta Lestrange (Zoë Kravitz) e Newt Scamander pouco se desenvolve, servindo de ponte para uma reconciliação entre o magizoologista e a auror Tina (Katherine Waterston). A trama de Leta, na verdade, se limita a uma cena de explicação, que serve de escada para a trama do obscurial Credence (Ezra Miller), usado como artifício para fazer todos os personagens se encontrarem num mesmo ponto, em Paris.

Alison Sudol como Queenie (Divulgação/Warner Bros.)

Até Queenie, personagem da Alison Sudol, ganha uma reviravolta estranha – e porque não mirabolante – e passível de comparação com o maniqueísmo político, manipulador e segregador que atinge sociedades mundo afora. Quem corre por fora é Dan Fogler, que teve em “Animais Fantásticos e Onde Habitam” um dos personagens mais carismáticos, e que neste segundo filme retorna como o Jacob Kowalski apenas para correr para lá e para cá em busca de sua amada e para servir como alívio cômico para a história.

Uma surpresa é a presença de Jude Law como o jovem Dumbledore, que em meio as tramas paralelas, se destaca pela forma como sua conexão com o vilão é desenvolvida. Law absorve os trejeitos do Dumbledore de Michael Gambon, ao mesmo tempo que dá seu toque de originalidade ao então professor de Defesa Contra as Artes das Trevas de Hogwarts. Já a relação afetuosa entre Dumbledore e Grindewald, fora dos livros da saga Harry Potter mas exposta posteriormente pela própria J.K. Rowling, fica subententida num dos diálogos do filme e o desenvolvimento em torno disso fica como promessa para os próximos filmes – sabe-se que mais três estão planejados para a saga “Animais Fantásticos”.

Jude Law como Dumbledore (Divulgação/Warner Bros.)
Jude Law como Dumbledore (Divulgação/Warner Bros.)

Do legado da cinematografia de Harry Potter fica o empenho magistral em construir um visual arrebatador, fruto do design de produção aqui conduzido por Stuart Craig. O 3D funciona muito bem em IMAX, fazendo valer o significado de “imersão” na experiência de assistir o filme nesta sala, associando as duas tecnologias. Já o 3D quando visto em uma sala normal não faz tanta diferença e em alguns casos até prejudica a experiência, pois o filme acaba tornando-se mais escuro do que já é e alguns detalhes acabam ficando impossíveis de serem observados. A trilha sonora cria os momentos de tensão necessários, principalmente no ato final, mas algumas inserções são um tanto forçadas, pra não dizer que servem apenas como um presente para os fãs mais saudosos da primeira saga de Rowling.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald representa a expansão de um universo brilhante, mas pouco bem desenvolvido. Com a promessa de mais três continuações para a saga – que diz-se ser pertencente ao Newt Scamander – fica a expectativa para que as tramas se desenrolem, ao invés de criar mais pontas soltas e mais mistérios que serão possivelmente resolvidos de maneiras absurdas, como a revelação final feita por Grindewald a Credence neste filme do David Yates, que desafia o cânone da saga literária de Harry Potter e é só uma das continuidades retroativas estabelecidas nesta trama original.

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