Em Chamas | Crítica

Longa baseado no conto de Haruki Murakami explora a obscuridade dos relacionamentos humanos.

Em Chamas (Divulgação/Pandora Filmes)
Em Chamas (Divulgação/Pandora Filmes)

Separados desde a adolescência, Jongsu (Ah-In Yoo) e Haemi (Jong-Seo Jeon) se encontram ao acaso em uma rua movimentada no centro da Coréia do Sul. Ele trabalha dirigindo um pequeno caminhão e entregando mercadorias, ela faz um bico de garota-propaganda em frente à uma loja. Haemi é direta e esbanja energia na mesma proporção que Jongsu é introvertido e cheio de incertezas ao se expressar; e após alguns encontros, a amizade de anos atrás os une novamente, embora fique claro que o jovem deseja algo a mais do relacionamento.

Quando Haemi parte em uma viagem à África somos apresentados ao dia a dia de Jongsu, que vê-se obrigado a voltar para o vilarejo onde cresceu e cuidar do pequeno sítio do pai, que está preso, e com o qual não fala. Semanas depois, após receber uma ligação da jovem para que a busque no aeroporto, Jongsu é surpreendido por uma companhia inesperada: o misterioso Ben, interpretado com sofisticação e frieza calculada por Steven Yeun (The Walking Dead) é a terceira peça desse quebra-cabeça. Um jovem rico com pronunciado ar ocidental, Ben se torna automaticamente uma ameaça à Jongsu, não só competindo pelas atenções de Haemi como expondo-o a carros importados, dinheiro, e um nível de luxo infinitamente acima da sua realidade.

Como descobriremos mais tarde, quase nada no universo criado pelo diretor Lee Chang-Dong (Miryang, Poesia) e pela roteirista Jung-mi Ohbaseado no conto de Haruki Murakami é o que parece ser, ou ainda, seus elementos possuem vários níveis de significado; assim como seus personagens: Jongsu é, na verdade, um aspirante a romancista, e Haemi faz curso de mímica para se tornar atriz. Ben, por sua vez, mesmo após uma revelação inesperada, permanece quase que todo o tempo nas sombras.

A belíssima fotografia de Hong Kyung-pyo faz o melhor uso possível das paisagens rurais da Coréia do Sul, com planos abertos que englobam horizontes infinitos e pores do sol que explodem em cor, ao mesmo tempo que consegue refletir a solidão, o isolamento e a intimidade entre os personagens, apoiada em fortes atuações do trio principal de atores. Lee Chang-Dong consegue o feito de transpor para a tela o tom único e preciso da literatura de Murakami, com um longa que é uma exploração de desejos não ou parcialmente consumados, de frustração, do abismo entre classes, relações familiares e tantos outros tópicos, transformando-se em thriller e culminando em um desfecho arrebatador. E essa é a melhor maneira de assistir Em Chamas, vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes desse ano e o escolhido para representar a Coréia do Sul na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2019: sem saber bem o que esperar e sendo brilhantemente surpreendido.

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