Verão | Crítica

Diretor Serebrennikov cria retrato da cena do rock russo na URSS dos anos 80.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

Verão (Divulgação/Imovision)
Verão (Divulgação/Imovision)

Filmado quase que completamente em preto e branco, Verão (ou “Leto” no original) do diretor Kirill Serebrennikov é parte biografia, parte nostalgia, parte peça de resistência, sobre o movimento pop/rock underground que aflorou na União Soviética no começo dos anos 80 – mais especificamente onde hoje fica São Petersburgo. Mayk Naumenko (Roman Bilyk) começa como a figura central dessa nova cena, líder da banda de sucesso Zoopark e reverenciado por todos.

A chegada do jovem e talentoso Viktor Tsoi (Teo Yoo) vem para desestabilizar a existência até então confortável de Mayk, que passa a dividir com ele não só a atenção do público e do seu círculo de amizades como também da mulher Natasha (Irina Starshenbaum) com quem tem uma filha. Ao invés de um drama baseado em mentiras e traição, Mayk e Natasha são extremamente sinceros um com o outro e após admitir sem rodeios que se sente atraída por Viktor, uma espécie de triângulo amoroso se forma.

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As bandas se apresentam no clube de rock oficial da cidade, rigidamente regulado pelo Partido Comunista, que controla desde as letras das músicas até as demonstrações de entusiasmo por parte do público durante os shows, que não devem se exceder para além de meros aplausos educados. Em contrapartida os jovens russos consomem e são instigados pelos Beatles, Bob Dylan, Velvet Underground, David Bowie, Talking Heads, The Doors, Sex Pistols e The Clash, transcrevendo letras a partir de um inglês mal traduzido.

O longa foge da estrutura de narrativa linear em vários momentos, seja com os atores “quebrando a quarta parede” e dirigindo-se diretamente à câmera em performances surrealistas ou com clips musicais embalados por covers de grandes sucessos do pop/rock americano e britânico. Verãofez parte da Seleção Oficial do Festival de Cannes deste ano, embora Serebrennikov não tenha podido comparecer à exibição, e é aí que entra o elemento de resistência: o diretor figura como uma das personalidades artísticas mais polêmicas da Rússia atualmente, devido à exploração de temas políticos, religiosos e de sexualidade, tanto em filmes quanto em peças de teatro, tendo sido preso em 2017 durante as filmagens e acusado de desvio de recursos, o que segundo ele não passa de perseguição por parte do governo. Ainda em prisão domiciliar, seu julgamento teve início no último dia 07.

Com duas horas de duração e sem grandes acontecimentos, os personagens de Serebrennikov fumam, bebem, ouvem, discutem e fazem música, para no dia seguinte fazerem tudo outra vez, num ciclo que acaba se tornando repetitivo mas não fugindo da realidade do que era fazer parte da cena do rock na época. Tanto Mayk quanto Viktor morreram jovens vítimas de acidentes, fazendo de Verão um mood piece carregado de nostalgia por um período quando, apesar da repressão – e especialmente devido à ela – um mundo de novas possibilidades parecia se abrir.

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