A Favorita | Crítica

Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz entregam 3 das melhores performances do ano em nova comédia dramática de Yorgos Lanthimos.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

A Favorita (Divulgação/Fox Film)
A Favorita (Divulgação/Fox Film)

O cinema do diretor grego Yorgos Lanthimos é um tanto quanto polarizador e conhecidamente não agrada a todos. Filmes como “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” tendem a confundir o público em geral, que pode não apreciar o tom, a atmosfera e a cadência extremamente específica dos diálogos por ele escritos.

Por outro lado, há aqueles que há muito renderam-se ao seu talento, e enxergam em Lanthimos alguém que foge do normal e do óbvio, alguém que explora sua criatividade e a condição humana sem pudores. Nesse sentido – e propositalmente ou não – A Favorita é o filme perfeito para a era pós #metoo de Hollywood. Um triângulo amoroso formado por três mulheres de idades, personalidades e interesses distintos; personagens complexas, autônomas, humanas, com defeitos e qualidades, para as quais os homens ao seu redor não passam de peças menores em um jogo no qual elas dão as cartas.

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O tabuleiro é a corte da rainha Anne da Inglaterra (Olivia Colman) no século 18 em meio a guerra contra a França, tendo como melhor amiga, braço direito e amante secreta Lady Sarah (Rachel Weisz). Frágil, sofrendo de gota e outros problemas de saúde, além da depressão e instabilidade emocional causadas pela morte do seus 17 filhos (!) ainda bebês, Anne confia a administração do palácio e todos as decisões políticas e econômicas do reino à Sarah, que sabe exatamente como manipulá-la e toma a responsabilidade para si com prazer. Tudo corre bem até que Abigail (Emma Stone) entra em cena. Prima distante de Sarah, viu a família perder a fortuna e com ela seu título de Lady. Trabalhando como criada, com sorrisos e boas maneiras consegue subir de posição no palácio, até tornar-se dama de companhia e ter acesso irrestrito à rainha. A partir daí segue-se uma série de intrigas, mentiras e segredos, através dos quais cada uma, a sua maneira, tenta conseguir aquilo que mais deseja.

Rachel Weisz e Olivia Colman em A Favorita (Divulgação/Fox Film)
Rachel Weisz e Olivia Colman em A Favorita (Divulgação/Fox Film)

Dentre um elenco de peso, é Olivia Colman quem rouba a cena e comanda a atenção do espectador em todos os momentos. Para o público britânico seu talento é familiar, tendo brilhado nas séries Broadchurch (2013) e O Gerente Noturno (2016), além de estar prestes a interpretar uma segunda rainha, substituindo Claire Foy na terceira temporada de The Crown. Colman vai da comédia à tragédia em questão de segundos, interpretando perfeitamente o papel da monarca abusiva e doente crônica, inspirando pena e repulsa simultaneamente. Weisz, que pela segunda vez colabora com Yorgos após seu papel em “O Lagosta” ao lado de Colin Farrell, é ao mesmo tempo severa e carinhosa, governando o reino – e Anne – com rédeas firmes. Emma Stone a acompanha com as medidas certas de inocência e indecência, entregando o que é provavelmente sua melhor atuação desde “A Mentira”. Assisti-las tentando – a princípio sutilmente, depois abertamente – destruir uma a outra é um deleite.

Como se o trio não bastasse, Nicholas Hoult (X-Men, Mad Max: Estrada da Fúria) está em sua melhor forma no papel de Harley, representante da oposição que usa de quaisquer meios para alcançar seus objetivos políticos. Em um filme protagonizado por três das melhores atrizes da atualidade, Hoult consegue se destacar como o perfeito coadjuvante. Ainda no elenco masculino destaca-se também Joe Alwyn (Boy Erased: Uma Verdade Anulada, Duas Rainhas) como o interesse amoroso de Abigail, rendendo ótimas cenas.

Rachel Weisz em A Favorita (Divulgação/Fox Film)
Rachel Weisz em A Favorita (Divulgação/Fox Film)

Fugindo da tradição de escrever seus próprios roteiros, Yorgos trabalhou com base no texto co-escrito por Deborah Davis e Tony McNamara, porém infusionando o longa com doses generosas de sarcasmo, senso de humor negro e tendência ao absurdo, elementos já tão conhecidos daqueles que acompanham seu trabalho. O diretor de fotografia Robbie Ryan baseou sua cinematografia em close-ups implacáveis e lentes olho de peixe em ângulos estranhos e inusitados, o que colabora para a sensação de estranheza e excentricidade dos personagens; assim como o uso inteligente e dramático das sombras e da luz de velas.

Todos os seus aspectos – da direção e atuações impecáveis, roteiro, trilha sonora excepcional, passando pelos belos figurinos de época até o meticuloso trabalho de direção de arte – fazem de A Favorita um filme basicamente sem defeitos, e sem dúvida um dos melhores ano. Tendo marcado forte presença no circuito de premiações com inúmeras nomeações, resta aguardar e torcer por mais que merecidos Oscars para Colman e cia.

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