A Nossa Espera | Crítica

Longa de Guillaume Senez traça retrato humano de um drama familiar.

Olivier (Romain Duris) é marido, pai de dois filhos, empregado dedicado e preocupado com seus subordinados – que considera primeiramente como amigos. Não pensa duas vezes antes de defendê-los com unhas e dentes contra a tirania da chefia e luta constantemente pelos seus direitos e por melhores condições. Sua esposa Laura (Lucie Debay) é vendedora em uma pequena loja, e a família leva uma vida apertada porém aparentemente feliz.

Além do trabalho puxado em sistema de turnos em uma grande distribuidora, Olivier é também ávido participante do sindicato que representa os trabalhadores, o que toma a maior parte das horas do seu dia. Devido à dedicação quase que completa ao emprego, não sobra a ele tempo para ficar em casa e cuidar da família, tarefa relegada à esposa, que demonstra sinais de exaustão, mas que trata dos filhos com muito carinho e atenção. A condição de saúde de Laura não é explicitamente revelada, mas somos levados a entender que a mesma sofre de algum distúrbio psicológico.

Durante uma visita médica, descobrimos que o filho mais velho de cerca de 10 anos está se recuperando de uma grave queimadura no peito causada por um acidente com uma panela de água quente envolvendo a mãe. “Não foi culpa dela”, comenta o menino, o que leva a crer que a suspeita já foi levantada. Após algumas crises de choro inexplicadas, desmaios e remédios, Olivier é obrigado a buscar as crianças na escola porque a mãe não apareceu. Ao chegar em casa, percebe que as roupas e pertences da mulher desapareceram. Preocupado, procura a polícia, apenas para ouvir aquilo que já temia: ele e os filhos foram abandonados.

O que se segue é a complicada adaptação de Olivier ao papel de pai responsável, que precisa aprender a conhecer e cuidar dos próprios filhos, mudar sua rotina e pensar na família em primeiro lugar, enquanto sofre com as más condições e exploração no local de trabalho. Duris interpreta bem ambas as facetas do seu personagem, empregando doses certas de drama, vulnerabilidade e realismo. Apesar de focar no desenvolvimento do pai, o filme também explora as consequências emocionais que o abandono causa nas crianças, especialmente na mais nova, que volta a molhar a cama e fica períodos sem falar. É interessante notar como as mulheres no longa – notadamente a mãe e a irmã de Oliver –  parecem compreender e admitem até mesmo compartilhar da decisão de Laura de abandonar o lar, questionando as expectativas absurdas e o peso colocados sobre elas pela sociedade e pelas próprias famílias.

A Nossa Espera (“Nos Batailles”, França/Bélgica) é um filme sobre recomeços e reconexões, escolhas difíceis, aprendizados e superação. O diretor Guillaume Senez (Keeper) tendo co-escrito o roteiro com Raphaëlle Desplechin, traça um retrato humano de uma situação dramática sem apontar dedos ou fazer discursos desnecessários. Seus personagens são igualmente falhos e compartilham das mesmas culpas nesse enredo que é ao mesmo tempo simples e complexo, com enfoque nas pequenas e grandes batalhas do dia a dia.

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