Kardec | Crítica

Longa de Wagner de Assis conta a história do pai do Espiritismo.

O ator Leonardo Medeiros no filme Kardec (Foto: Divulgação)
O ator Leonardo Medeiros no filme Kardec (Foto: Divulgação)

Paris, segunda metade do século 19. O professor, autor, homem da ciência e da literatura Hippolyte Léon Denizard Rivail (Leonardo Medeiros) inquieta-se cada dia mais com as intervenções da Igreja Católica no sistema de ensino francês. Para ele, educação e religião deveriam andar sempre separadas, e todos deveriam ser livres para escolher no que acreditar. Após uma carta aberta criticando essas imposições Léon pede demissão do emprego e passa a viver modestamente ministrando aulas particulares juntamente com sua esposa Amélie (Sandra Corveloni).

Enquanto isso, uma nova moda começava a tomar conta de Paris e outras cidades da Europa: as chamadas “sessões” onde grupos de homens e mulheres se reuniam na esperança de evocar os espíritos daqueles que já se foram e ouvir suas mensagens, através do fenômeno das “mesas flutuantes”. De sua parte, Léon se negava relutantemente a ter qualquer contato com essas atividades. Para ele, as supostas aparições não passavam de um golpe criado para enganar as mentes fracas e suscetíveis dos crédulos, algo passageiro. Entretanto, após finalmente ser convencido por amigos a atender um desses encontros, teve sua crença abalada e passou a considerar que talvez existisse algo para além do mundo dos vivos.

O professor passou então a administrar seus conhecimentos técnicos no estudo desses fenômenos, a fim de compilar dados suficientes para provar cientificamente sua veracidade. Quanto mais se aprofundava nesse universo, mais Léon convencia-se de que se tratava de um novo campo a ser desvendado, com inúmeras possibilidades e uma vasta gama de conhecimentos a serem adquiridos. Após algum tempo, com a ajuda de diversos médiuns locais e de outros países, decifrou as primeiras mensagens supostamente enviadas do além e lançou o primeiro livro sobre o tema intitulado “O Livro dos Espíritos”, assinado com o pseudônimo Allan Kardec.

Na mesma proporção que os seus estudos e o livro começaram a ganhar notoriedade, Kardec passou a acumular inimigos: a Igreja, que incitava o ódio dos fiéis, membros da imprensa, e até mesmo a sociedade de ciência da qual foi membro durante muitos anos e que agora considerava-o louco por defender a ideia de que espíritos vagavam por entre os vivos. Suas obras chegaram a ser proibidas e queimadas em praça pública.

Apesar da negatividade inicial, os trabalhos de Kardec começaram uma revolução e ganharam milhares de adeptos ao redor do mundo, dando início ao movimento que ficaria conhecido como Espiritismo.

A direção de arte, fotografia e figurinos do longa merecem destaque, servindo como belo pano de fundo para o desenrolar da trama, que, como é o caso na maioria das biografias, especialmente de época, mantêm um tom levemente didático e expositivo. Medeiros e Corveloni possuem ótima química e convencem como um casal cujo relacionamento é baseado em respeito e carinho mútuos. O elenco conta ainda com Guilherme PivaGenézio de Barros e Charles Fricks, em boas atuações. O diretor Wagner de Assis (Os Transgressores, A Menina Índigo) já havia se debruçado sobre o mesmo tópico no longa Nosso Lar (2016), drama baseado na obra de Chico Xavier. Em Kardec, Wagner retrata a vida de alguém em busca da verdade absoluta – seja neste ou em outros mundos -, desvendando um pouco mais sobre o homem que virou mito e cujo legado, filosofia moral e de ajuda aos necessitados permanece até os dias atuais.

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