A Árvore dos Frutos Selvagens | Crítica

Filme de Nuri Ceylan é um épico que troca a ação pelo estudo profundo das relações humanas.

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Evie Diane
Evie Diane
Cresceu vendo filmes ao invés de brincar na rua. Fã de ir ao cinema sozinha. Denis Villeneuve, Steve McQueen, Luca Guadagnino, Woody Allen, Christopher Nolan, Olivier Assayas.

A Árvore dos Frutos Selvagens (Foto: Divulgação/Fênix Filmes)
A Árvore dos Frutos Selvagens (Foto: Divulgação/Fênix Filmes)

Sinan, interpretado por Aydin Dogu Demirkol, é um estudante de letras recém-formado que retorna à sua cidade natal e à casa da família. Ainda sem poder atuar como professor e com um manuscrito na bagagem, o jovem tem planos de conseguir financiamento para publicá-lo. Entretanto, ele logo percebe que a tarefa será ainda mais árdua do que imaginou, especialmente devido à situação financeira da família, afogada nas dívidas de jogo feitas pelo pai Idris (Murat Cemcir). Sinan não está feliz por retornar à antiga vila, que considera “tacanha, atrasada e cheia de pessoas fanáticas e com pensamento limitado”. Logo de cara, admite que o livro se trata de uma ficção, sem nenhuma tendência religiosa ou política. Ao invés, expressa a sua visão particular de mundo, assim como confissões íntimas.

Do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, A Árvore dos Frutos Selvagens é construído de tal forma que cada um dos personagens que Sinan encontra pelo caminho tem algo à acrescentar, uma lição de vida ou observação a fazer. Temas como política, filosofia, família e liberdade são abordados de maneira orgânica, como acontece na vida real, em nosso dia a dia. As cenas funcionam quase como capítulos de um livro, desenrolando-se sem pressa, e dando ao espectador tempo de sobra para absorvê-las. A pequena vila onde Sinan nasceu e viveu a maior parte da vida existe como um microcosmo, cada habitante guardando um universo inteiro dentro de si, que o filme explora pouco a pouco. Ceylan ilustra também as diferenças de opinião causadas pelos abismos entre as gerações. O avô é crítico das ideias “fantasiosas” do pai, que considera um sonhador. O pai por sua vez, considera o avô retrógrado e cabeça-dura. O filho já não tem muita paciência para ambos.

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Hazar Ergüçlü e Dogu Demirkol em A Árvore dos Frutos Selvagens (Foto: Divulgação)
Hazar Ergüçlü e Dogu Demirkol em A Árvore dos Frutos Selvagens (Foto: Divulgação)

O livro de Sinan e o título do filme vem das árvores de mesmo nome que crescem na região, sendo testemunhas do nascimento e morte de gerações de moradores, muitos sem nunca terem saído dos limites da cidade. Como o longa deixa claro, porém, limites geográficos nem sempre significam estagnação da alma, assim como ter o mundo inteiro diante de si não é garantia de felicidade. A importância da literatura e as dificuldades de viver como escritor – algo que se estende para qualquer artista em geral, qual seja a sua plataforma – também são discutidas pelos personagens.

O filme de Ceylan é como uma tapeçaria milenar, que requer tempo – 3 horas – e paciência para ser completamente apreciado em seus mínimos detalhes. Com atuações extremamente realistas e orgânicas, ritmo quieto e construído a partir de uma miríade de pequenos momentos, o longa transmite ao espectador a sensação de estar assistindo a vida passar, capturando a beleza dos instantes mais simplórios e cheio de emoções autênticas. O diretor tem a coragem – e ao mesmo tempo a despreocupação – em pedir que a audiência fique satisfeita exatamente com aquilo que é apresentado e nada mais. É bem óbvio que não há preocupação em agradar um grande público, e esse é um dos motivos que fazem “A Árvore dos Frutos Selvagens” tão especial.

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