Azougue Nazaré | Crítica

Embate entre cultura e religião retratado no longa de estreia de Tiago Melo é recorte da realidade.

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Paulo Cavalcante
Paulo Cavalcantehttp://www.cafedeideias.com
Professor, atua na internet há mais de dez anos produzindo conteúdo sobre séries e cinema, aprecia a sétima arte e a dramaturgia para as diferentes telas.

Azougue Nazaré (Divulgação/Inquieta Cine)
Azougue Nazaré (Divulgação/Inquieta Cine)

Uma terra com uma vasta variedade de culturas que culminam em diferentes religiões, o Brasil vem perdendo suas raízes com a ascensão do poderio das igrejas. O embate entre cultura e religião é o tema de Azougue Nazaré, premiado filme de Tiago Melo que após circular mundo afora por festivais, chega aos cinemas brasileiros em circuito comercial.

O longa retrata a cidade de Nazaré da Mata diante de uma relação conturbada entre cultura e religião. Parte do seu povo vive da cultura que se firmou historicamente naquelas terras como uma religião, tendo como base o maracatu rural. Por outro lado, há quem tenha se convencido dos discursos do pastor Mestre Barachinha, responsável por converter a população à religião evangélica. Neste embate conhecemos o casal Catita (Valmir do Coco) e a Irmã Darlene (Joana Gatis). Enquanto a mulher evangélica ouve os ensinamentos do pastor e bane tudo o que se refere ao maracatu, Valmir é adepto da cultura enraizada na região e passa a viver uma vida dupla, tentando ser feliz com o maracatu e com o casamento.

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O cineasta estreante que produziu outros prestigiados longas nacionais como “Aquarius” (2016) e “Boi Neon” (2015) prioriza situar o espectador na trama que pretende contar nos seguintes oitenta minutos de filme. A vida do casal Catita e Darlene é mostrada na sua mais pura realidade e em sintonia com a cultura da comunidade e como aquele povoado se relaciona. O primeiro terço de hora é suficiente para que o espectador se convença e a partir daí tome partido de uma das personagens.

Valmir do Coco surge como um dos grandes destaques do longa. Visto recentemente nos cinemas numa atuação tímida porém marcante em “Bacurau” (2019), o ator imerge com vigor numa trama que enaltece uma cultura que vem sendo podada pela religião mas que insiste em resistir graças a pessoas como o Catita do filme.

A forma como o personagem de Valmir do Coco se posiciona em relação ao maracatu abre discussões interessantes sobre os embates entre cultura e religião e dá margem para que esta hegemonia da religiosidade seja posta em cheque, algo que no cinema tem ganhado um certo destaque como no recente “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro.

Fazendo uso de elementos sobrenaturais, Tiago Melo atinge o ápice da narrativa de Azougue Nazaré, mostrando que cultura e religião andam juntas e dissociá-las faz parte de um discurso que não está na responsabilidade de divindades ou entidades, mas do feitio e soberba do próprio ser humano.

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